domingo, 27 de novembro de 2016

Mais de um terço de alunos LGBT sofreram agressão na escola, diz pesquisa


Estudantes pertencentes à comunidade LGBT relatam que são agredidos dentro das escolas e que isso atrapalha o rendimento nos estudos. Alguns, inclusive, declaram que já cogitaram tirar a própria vida por causa das agressões.

De acordo com a pesquisa Pesquisa Nacional sobre o Ambiente Educacional no Brasil 2016 divulgada nesta semana, 73% dos estudantes gays já foram agredidos verbalmente e 36% foram agredidos fisicamente.

Arthur Ricardo, estudante de Publicidade e Propaganda, diz que nunca sofreu nenhum tipo de agressão física por ser gay, mas que tem muitos amigos que já sofreram, até mesmo pelos próprios pais. “É uma realidade triste, quando minha amiga apanhou do pai pela primeira vez, por ser lésbica, eu senti na pele a mesma dor que ela sentiu com as pauladas, pois sei que no lugar dela poderia ser eu, ou qualquer um de nós, LGBTs. Agora quanto a agressões verbais, isso é tão comum, que na nossa vida vira até rotina. Sempre terá um cara ou outro em cada esquina, falando "é menino ou menina", te chamando de "viado" ou te assediando e invadindo por puro prazer”.

O jovem conta que a escola foi um período difícil. “Eu tentava reafirmar para as outras pessoas que eu não era, de tanto que elas me oprimiam. Todos os meninos falavam sobre o meu cabelo ser longo demais, sobre as minhas calças apertadas e segundo eles eram coisas de gay, uma grande besteira machista. Mas eu me moldei ao machismo deles e ficava com meninas para tentar me sentir bem. Na faculdade as pessoas já estavam um pouco mais preparadas para mim e para a minha sexualidade. Um período onde poucos ainda possuem um pensamento tão retrógrado quanto aqueles que eu tive que lutar contra ao longo da minha adolescência. Estive mais empenhado a ajudá-los a entender a diversidade, do que me adaptar a um ambiente opressor”, afirma.

Entre aqueles que sofrem agressões verbais frequentemente ou quase sempre por causa da orientação sexual, 58,9% faltaram às aulas pelo menos uma vez no último mês. Entre aqueles que sofrem agressões por conta da identidade de gênero - por serem travestis ou transexuais -, 51,9% faltaram às aulas.

Em relação ao desempenho, os estudantes que são alvo menos frequente de preconceito relatam obter notas melhores do que aqueles que são vítimas da discriminação com mais intensidade. Os que relataram sofrem agressões pela orientação sexual ou pela identidade ou expressão de gênero "nunca, raramente ou às vezes", cerca de 80% disseram ter recebido notas boas ou excelentes, entre 7 a 10 pontos. Os índices caem entre aqueles que sofrem agressões frequentemente ou quase sempre por orientação sexual (73,5%) e expressão de gênero (72,4%).

Ao todo, foram entrevistados 1.016 estudantes LGBT de 13 a 21 anos que frequentaram a escola em 2015. Os dados foram coletados entre dezembro de 2015 e março de 2016 pelas mídias sociais - Instagram, Facebook e Twitter - e por email. A maior parte deles estuda em instituições públicas, 73,1%. Os demais estudam em escolas religiosas (6,5%) e outras instituições privadas (20,4%). Os estudantes não foram identificados, pois trata-se de uma pesquisa anônima.

"Os estudantes LGBT precisam ser tratados como são os estudantes heterossexuais. Não queremos ser tratados de maneira privilegiada, nem queremos ser melhor que os outros, só queremos cidadania igual", afirma R.B, que por motivos familiares optou por não se identificar.

Suicídio

A pesquisa constatou ainda que os estudantes LGBT que vivenciaram maiores níveis de agressão verbal devido à orientação sexual ou identidade de gênero têm probabilidade 1,5 vezes maior de relatar níveis altos de depressão. Alguns dos depoimentos de estudantes evidenciam também níveis mais baixos de autoestima e até mesmo desejo de cometer suicídio.

Na avaliação da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), para reverter esse cenário, é preciso que os professores tenham uma formação com conteúdos específicos voltados para a diversidade sexual e que haja materiais pedagógicos para promover o respeito a todos sem distinção de qualquer característica pessoal. Além disso, diz que são necessários canais para que os estudantes possam denunciar as agressões. Entre outras medidas, a associação pede políticas públicas e leis para combater a discriminação contra a população LGBT.

Fonte: Revide

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