Congregações pentecostais de estilo americano também têm uma atuação cada vez mais forte na política brasileira. Eleitores evangélicos ajudaram a emplacar mais de 60 deputados em uma Câmara de 513 membros. O número de parlamentares evangélicos dobrou desde 2010. Eles são um dos blocos mais disciplinados de uma legislatura desordenada e dividida.
Jean Willys, único congressista declaradamente gay, diz que os parlamentares evangélicos, núcleo de uma coalizão conhecida como "bancada BBB" - de bala, do boi e da Bíblia -, vêm bloqueando leis que puniriam a discriminação de gays e aumentariam as penas para crimes de ódio. "Os evangélicos estão se tornando cada vez mais poderosos e já dominaram o Congresso", afirma Willys.
Eduardo Cunha, comentarista de rádio evangélico que presidia a Câmara (renunciou ao cargo na última quinta-feira, dia 7)e é acusado de ter recebido mais de R$ 130 milhões em propina, uma vez sugeriu que o Congresso criasse o Dia do Orgulho Heterossexual. Quando uma novela de TV apresentou um beijo gay ele manifestou sua repulsa no Twitter.
Num debate presidencial pela televisão em 2014 um dos candidatos, Levy Fidelix, disse que homossexuais não serviam para ser pais e que "o aparelho excretor não reproduz". Jair Bolsonaro, congressista bastante conhecido por sua visão conservadora, recomendou punições corporais como meio de tornar gays heterossexuais.
Javier Corrales, cientista político do Amherst College que estuda movimentos de direitos dos gays na América Latina, diz que grande parte da homofobia é uma reação a conquistas como casamento entre pessoas do mesmo sexo. "Os brasileiros estão ficando mais tolerantes", diz ele, "mas os que continuam intolerantes e se opõem aos direitos LGBT estão desenvolvendo novas estratégias e um discurso mais virulento para bloquear avanços nesse campo."
Marco Feliciano, membro destacado da bancada evangélica no Congresso, rejeita a sugestão de que sentimentos antigay incentivem a violência. Numa entrevista, ele se desculpou por ter anteriormente descrito a aids como "câncer gay", mas defendeu a luta contra leis de direitos dos gays. Feliciano insistiu, por exemplo, que casais do mesmo sexo não servem para ser pais. "Eles põem a civilização e a família tradicional em risco de extinção", afirmou.
Políticos conservadores têm resistido às tentativas de se ensinar tolerância nas escolas, e a polícia vem mostrando pouco interesse em adotar programas de treinamento para ajudar soldados da Polícia Militar a lidar com crimes preconceituosos. Vítimas da violência antigays e transgêneros dizem que frequentemente sofrem nova humilhação por parte de autoridades policiais, algumas das quais são abertamente hostis à requisição de que registrem um crime como motivado por preconceito.
Dudu Quintanilha, de 28 anos, artista e fotógrafo de São Paulo, diz que foi surrado a pauladas por quatro agressores durante o carnaval deste ano. Os agressores o atacaram no centro da cidade, gritando slogans antigays enquanto deixavam seu rosto sangrando. Mas a polícia, acusa ele, recusou-se a considerar o ataque um ato de homofobia.
Na delegacia, durante várias horas os policiais insistiram que ele tinha sido vítima de um simples assalto, uma vez que celular e carteira foram levados em meio à confusão. "No fim, me fizeram duvidar de que um ataque homofóbico tivesse realmente ocorrido", diz ele. "Fizeram-me duvidar de que eu estivesse em meu juízo perfeito."
Antonio Kvalo, de 34 anos, webdesigner, criou o site temlocal.com.br, em que são divulgados casos de violência antigay. Kvalo diz que fez o site motivado por uma agressão que ele próprio sofreu em 2008, quando dois homens o cercaram numa rua do Rio e o chutaram dezenas de vezes.
Quando os policiais chegaram, passaram a questioná-lo repetidamente sobre seu relato e, como ele insistisse em que registrassem o ataque como crime de ódio, mandaram que pusesse as mãos no capô do carro policial na posição de suspeito. "Fizeram com que me sentisse como um criminoso", diz ele.
Segundo ativistas, os transgêneros brasileiros são os que mais sofrem brutalidades, com muitas vítimas de assassinato sendo também terrivelmente mutiladas. No ano passado, um grupo de homens filmou seu ataque a Pi da Silva, de 25 anos, dançarino de samba do Rio. Ele foi torturado e forçado a implorar pela vida antes de ser esfaqueado e levar seis tiros. Os agressores, que postaram o ataque no Facebook, não foram encontrados. "Transexuais vivem em constante medo", diz Kvalo.
Mesmo quando suspeitos de violência homofóbica são presos, frequentemente são tratados com leniência, dizem ativistas dos direitos dos gays. Os dois homens que agrediram selvagemente André Baliera, de 28 anos, estudante de direito, num bairro nobre de São Paulo, foram inicialmente acusados de tentativa de assassinato. Mas, após cumprirem 2 meses de prisão, pagaram uma multa de R$ 20 mil e foram soltos, no ano passado.
O medo ainda assombra Gilson Borges Reis, de 18 anos, estudante, de Lauro de Freitas, cidade industrial do Nordeste do Brasil. No mês passado, um primo que o assediava por ser gay atacou-o na rua com uma faca de cozinha, ferindo-o no peito e braços, enquanto parentes de Gilson assistiam à cena horrorizados.
Gilson sobreviveu e o primo, evangélico, acabou preso. Acusado de tentativa de homicídio, foi rapidamente solto sob fiança. Os dois primos moram na mesma rua. "Ele passa por minha casa e me olhava com uma cara apavorante", diz Gilson. "Não tenho nenhuma proteção. Estou com medo."/Tradução Roberto Muniz