sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O Natal das novas famílias


Qual hipócrita é capaz de garantir que é melhor para uma criança viver num abrigo que ser educada por gays?

WALCYR CARRASCO

Encontrei com uma amiga carioca num shopping. Escolhia roupinhas de menina.
– Estou com criança em casa, você sabe?
Eu já sabia, sim. Ela e a companheira de muitos anos decidiram completar a família. A companheira fez inseminação artificial, fora do país. Nasceu uma linda menina, que se tornou a alegria da casa. Era lindo ver minha amiga apaixonada pelos presentes que ia oferecer. Também tenho um amigo, do Paraná, que adotou duas crianças com seu companheiro. Outro dia postou um vídeo horrorizado com a  postura do Congresso em reconhecer como família apenas a constituída por homem e mulher.
– Então eu não existo? Minha família não existe? – perguntou.
Um retrocesso. Evangélicos e católicos radicais têm todo o direito de enxergar o mundo sob a ótica da religião. Mas vivemos em um país leigo. A religião não deve determinar as leis. Aqui abrigamos também budistas, umbandistas, muçulmanos, judeus, ateus. A lei é para todos. O que vai acontecer com as pessoas do mesmo sexo que se casaram e, mais ainda, têm família? E as crianças adotadas, serão devolvidas? É difícil que isso aconteça, mas criou-se uma tensão desnecessária.
– Se os gays desejam formar famílias, isso fortalece a família em si – opinou meu amigo Daniel, que não é homossexual.
Temos agora a grande festa da família, o Natal. O que sentem as novas famílias, ao saber que podem deixar de ser reconhecidas legalmente? Sim, o Judicário do país tem se mostrado atuante e bem avançado. Mas segue aquilo que o Legislativo determina. Eu ouço opiniões como da ex- deputada Myrian Rios, que chega ao extremo de insinuar que a vida sexual dos pais exerceria uma grande influência na dos filhos. Ainda bem que não foi reeleita em 2014, pois nunca ouvi maior bobagem. A maior parte dos gays e lésbicas é composta de filhos de héteros. Já disse várias vezes. Conheci pelo menos três rapazes héteros criados por gays. Diante de uma situação de não reconhecimento familiar, o que acontece? Ou é daqui por diante? Casais formados por pessoas do mesmo sexo não poderão adotar mais filhos, devido a imposições de origem religiosa? Ora, vamos falar francamente: a opção para a maioria dessas crianças é um abrigo estatal. Ou um orfanato. Por maior boa vontade e carinho que os gestores dessas instituições tenham, a criança criada em grupos quase anônimos não recebe amor semelhante ao de uma família. E mais: sabe-se bem que em muitos abrigos a situação é de dor, abandono, necessidade. Qual hipócrita é capaz de garantir que viver num abrigo é melhor que ser educado por gays, lésbicas, trans? Mesmo, sendo radical, por suas famílias de sangue, em muitos casos? Crianças criadas por pais drogados muitas vezes são submetidas a violências que nem dá para imaginar. É melhor do que ter uma mãe que vai ao shopping comprar roupinhas de Natal, e que, eventualmente, vive com outra mulher?
Em muitos aspectos admiro evangélicos e católicos carismáticos que tentam sentir e entender a palavra de Cristo de maneira profunda. O nascimento de Cristo inaugurou uma nova era para a Humanidade, não só em termos religiosos. Mas todos nos tornamos mais tolerantes quando o “olho por olho, dente por dente” foi substituído pelo “amai ao próximo como a ti mesmo”. O significado da palavra de Cristo, tanto em termos históricos como em evolução ética, atinge a todos nós. Mesmo aos ateus, vejam só! A família como base da sociedade tem um papel fundamental. É dentro da família que o indivíduo é formado, agrega valores. A escola também faz muito nesse sentido. Mas, quanto mais a família oferece, melhor para a evolução da criança. Então, se pessoas, antes marginalizadas, querem formar família, qual o problema? Eu bem queria ser terapeuta desses radicais religiosos. Será que no fundo não há um desejo sufocado, uma enorme curiosidade sexual? Odeiam o próximo porque temem o que há dentro de si mesmos?
E aí cheguei à palavra certa: ódio. Esse desejo de controle da vida sexual alheia expressa, sim, uma raiva. O motivo psíquico deve ser bem interessante! Ah, eu desejo às novas famílias que tenham um grande Natal, com presépio e Menino Jesus. Presentes na árvore. Ceia e alegria. O retrocesso proposto é inconcebível até para um governo que quer articular a qualquer preço. Nada melhor que neste Natal todos lembrem o que está sendo comemorado. “Amai-vos uns aos outros.” Não foi o que Ele disse?
Fonte: Época

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