sábado, 11 de outubro de 2014

Homofobia e a silenciosa dor na infância


Vinicius Lousada
Acabo de ler um texto no qual o deputado federal e militante LGTB Jean Wyllys relata a primeira vez que foi vítima de homofobia. Ele ainda era criança e um pouquinho mais novo do que eu, quando ouvi o primeiro “Seu viado!”. Eu tinha 7 anos e era recém-chegado na escola de ensino fundamental, de onde guardo boas recordações, mas que acabaram se perdendo em meio a dolorosos oito anos, marcados pelo excelente desempenho escolar e por insultos que eu sequer entendia. Afinal, não sabia nem o que era ser gay (nem tinha como ser diferente com tão pouca idade).

Como bem observa Wyllys, assim como o racismo, a homofobia fere suas vítimas desde a infância. A diferença é que a criança negra pode compartilhar o sofrimento com seus pais e irmãos que, na maioria das vezes, a acolhe. No outro caso, a criança se acanha e, solitariamente, busca razões que justifiquem a dor, sente culpa, se autopenaliza e carrega essa marca por toda a vida. Exemplo disso é que, apenas há alguns meses, consegui relatar para minha mãe o quanto sofri na infância e no início da adolescência; nove anos após ter contado a ela sobre minha homossexualidade.

Tenho certeza que, ainda hoje, sou vítima de homofobia, mesmo que velada. Repórter de política, nem sempre escrevo matérias que agradam nossos representantes. E bato uma aposta: quando alguns deles leem esses meus textos desconcertantes, certamente pensam: “Seu viado!”, assim como os meus coleguinhas de escola.

A diferença é que, hoje, com o desenvolvimento intelectual, consciência sobre a sexualidade e respaldo familiar, tenho totais condições de me defender caso me depare com um eventual insulto homofóbico (embora ainda esteja, só por andar na rua de mãos dadas com o meu companheiro, sujeito a ataques violentos, dos quais milhares de gays, lésbicas, travestis e transexuais são alvo diariamente no Brasil).

Não escrevo esse texto em tom de desabafo, muito menos buscando compaixão, mas com o objetivo de, na Semana das Crianças, pedir para que os adultos voltem o olhar a esse grupo delas.

Esses seres indefesos precisam de compreensão, acolhimento e proteção na família (de onde, em alguns casos, parte a homofobia) e na escola (na maioria das vezes, despreparada para lidar com a sexualidade da criança, independentemente do modo como ela se manifeste).

Deixo claro aos fundamentalistas (os mesmos que lutam contra a criminalização da homofobia e a instituição do Kit Anti-homofobia nas escolas): não estou dizendo que qualquer comportamento deva ser incentivado, até por não acreditar nessa tese quando o assunto é sexualidade. Tudo tem seu tempo para ser compreendido. Essas crianças só precisam de atenção. Aproveito para saudar o amigo e colega de redação Vitor Oshiro pelo sensível artigo publicado na última segunda-feira: “Eu queria ser homossexual”. Foi com muita alegria que recebi suas palavras!

O autor é militante social, jornalista e repórter da editoria de Política do JC

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