sábado, 11 de outubro de 2014

Eu queria ser homossexual


    Vitor Oshiro
Calma, pai e mãe. Eu sou hetero. Mas só de ter que começar este texto tendo que pedir calma aos meus pais reforça ainda mais minha argumentação. E é verdade: em algum momento da minha vida, eu passei a pensar que era melhor ter nascido homossexual. Pensei que faço parte de uma instância evolutiva que ficou para trás: ‘neanderheterossexuais’. Em algum momento da humanidade, parece que a evolução deu um passo à frente e “criou” os homossexuais.

Recentemente, a questão ganhou ainda mais força com as declarações de Levy Fidelix (PRTB). O candidato – que já não tinha chance alguma de vencer – a presidente parecia ter um aparelho excretor na boca ao proferir tamanhas bobagens. O impressionante é ver uma legião de pessoas assinando embaixo o discurso dele com argumentos de “liberdade de expressão” e “defesa da família”.

Não é um e nem outro. Todos os pilares de tal argumentação banal podem ser destruídos facilmente com uma única expressão: discurso do ódio. Qualquer motivo para se tratar um ser humano diferente – seja ele homo, hétero, preto, pardo, azul, cor de rosa, argentino – e de se tentar justificar nada mais é do que propagar um discurso de ódio. Um discurso de valorizar – ou desvalorizar - diferenças.

Mas teve tanta gente que entendeu as declarações de Levy como racionais, morais e éticas. E tem tanta gente que as defende com unhas e dentes. E tem tanta gente que acha mesmo que ele está “defendendo a família”. É de desanimar. E é por isso que o que vou dizer, a partir de agora, é uma grande generalização: os homossexuais parecem ter atingido um nível acima de intelecto. Na escala evolutiva, parecem estar um passo à frente. Usam mais o cérebro do que nós, meros heterossexuais do século passado.

O que continuo dizendo é uma grande generalização: os homossexuais não acham que a mulher é culpada por ter sido estuprada por ter “atiçado” o homem com sua roupa curta; os homossexuais não acham que é exagerada a punição do Grêmio pelo fato de sua torcida ter chamado um ser humano de macaco; os homossexuais não acham que o feminismo é um movimento radical de mulheres bigodudas que querem dominar o mundo; os homossexuais não acham um absurdo um beijo que fuja um pouco do convencional nas novelas; os homossexuais não olham com estranhamento quando um casal hetero entra no cinema de mãos dadas.

Talvez, se Charles Darwin estivesse vivo, ele repensaria toda sua teoria. Talvez, ele provaria como o homossexual está em uma escala evolutiva acima dos meros ‘neanderheterossexuais’. Talvez, algum estudo do cérebro possa mostrar como uma partezinha enigmática chamada “tolerância” e outra não menos importante chamada “bom senso” estão mais evoluídas nas cacholas dos homossexuais.

E qual o argumento que refutaria por “A =B” tudo isso? “Mas eles não podem ter filhos e blá blá blá...”. Não. Não podem. Muitos homossexuais acabam adotando os filhos que nós, casais heteros, abandonamos por algum motivo. Por isso, os homos não estão aqui para acabar com nós, caros heteros. Estamos aqui para coexistir. Será que é tão difícil entender isso? Será que, mesmo heteros, conseguiremos, um dia, evoluir um pouquinho?

O autor, que conseguiu mudar um pouco o cérebro preconceituoso que tinha, é editor local do JC, jornalista responsável da TV USP Bauru e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia

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