domingo, 7 de setembro de 2014

'Na gestação disseram que eu seria menina', diz transexual que fará Enem


A vestibulanda Maria Clara Araújo, de 18 anos, é uma das 95 transexuais inscritas na edição de 2014 do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e autorizadas a usarem seu nome social durante as provas. Filha única de um casal que a adotou logo após o nascimento, Clara atualmente estuda em um cursinho pré-vestibular e pretende conseguir uma vaga em serviço social na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Essa é a segunda vez que ela presta o Enem, mas será a primeira em que ela poderá ser tratada pelo nome que escolheu para si.
Este é o primeiro ano em que candidatos e candidatas transexuais do Enem poderão usar o nome social nas provas e na comunicação com os fiscais. "O movimento como um todo tem batido muito na tecla das pessoas 'trans' começarem a entrar na universidade, e o Enem permitir o nome social é uma forma de chamar essas pessoas, de dizer que elas devem pertencer a esse lugar também", disse ela, em entrevista ao G1.
A história de Maria Clara desafia as fronteiras tradicionais de identidade. Quando ela ainda estava na barriga da mãe biológica, os exames médicos indicavam que o feto era de uma menina. Mas, no dia em que nasceu, os médicos a identificaram como um menino, porque ela nasceu com órgãos genitais masculinos.
"Durante toda a gestação disseram que eu seria uma menina. Aí quando eu nasci, nasceu um menino supostamente. Foi assim que aconteceu. Perguntaram para minha mãe adotiva se ela ainda me queria. Ela falou 'claro'", disse ela. Segundo a estudante, a mãe já havia preparado um quarto temático com a cor rosa, mas ele foi repintado depois da notícia.
Durante a infância e parte da adolescência, ela diz ter tido problemas ao se recusar a seguir padrões considerados masculinos, e preferir roupas e objetos tradicionalmente indicados para meninas. Foi só em fevereiro de 2011, quando ela assistiu pela televisão a uma entrevista da modelo transexual Leah T, que Maria Clara descobriu o que era a transexualidade. "Ela disse que todos os dias ela colocava as sandálias ao contrário e andava daquela forma. Quando ela falou isso levei um choque, era mais ou menos como eu estava me sentindo", explicou ela.
Transformação
Aos 16 anos, a jovem começou a transformação: enquanto trabalhava em um estágio, ainda com a aparência masculina, ela passou a juntar dinheiro para comprar roupas, acessórios e os hormônios necessários para alterar sua aparência.

"Comecei a ver vídeos, documentários, ler, fazer anotações. Vi que era uma mudança muito grande, precisava saber como era isso. Comecei a experimentar roupas de meninas para saber como eu iria reagir e externar esse lado feminino", disse a vestibulanda, que contou com o apoio dos amigos até na hora de escolher seu nome social. Clara foi sugestão de uma amiga. "De início ia ser só Clara, mas para agradar a minha mãe, que é católica, coloquei o Maria Clara."
Quando estava terminando o ensino médio e deixado o estágio, ela decidiu seguir em frente com a transformação, e revelou aos pais sua condição. "Cheguei para a minha mãe e falei: 'Comprei hormônios, megahair, roupas femininas, e a partir daqui minha vida vai ser dessa forma'. Ela disse 'se você vai ser feliz dessa forma, tudo bem'", explicou Maria Clara.
O pai, segundo ela, se manteve neutro. "Ele não fala o 'sim', mas também não fala o 'não'."


Nome social no cursinho
Como já estava terminando o ensino médio, a jovem decidiu se formar sem pedir a adoção de seu nome social. Mas, ao se matricular no cursinho pré-vestibular, no ano seguinte, ela pediu para ser tratada como Maria Clara e teve a solicitação atendida. No crachá e no boleto da mensalidade, seu nome de registro não aparece. "Eu sou a primeira aluna transexual no curso, e sou extremamente respeitada. As pessoas têm noção que o nome social é uma questão de respeito, de fazer a pessoa se sentir bem naquele ambiente. Eu até perdi o documento [seu RG tem ainda o nome civil] e ele ficou um tempão lá, porque ninguém sabia de quem era", disse.

No Enem de 2013, a jovem diz que deu sorte ao encontrar um fiscal compreensivo na sua sala de provas. "Eu cheguei e falei: 'olha, meu anjo, eu passaria por constrangimento se você usasse meu nome de registro para falar comigo", explicou ela, dizendo que o fiscal aceitou o pedido. "Para mim foi tranquilo, mas realmente ouvi relatos de meninas que tiveram problemas."

Neste ano, ela disse não ter encontrado dificuldade com o pedido oficial de uso do nome social. Segundo ela, nas provas e no tratamento que receberá dos fiscais, seu nome civil não será mencionado. Ela também disse que terá direito de usar o banheiro feminino.

O próximo passo para a jovem é reunir todos os documentos oficiais e dar entrada a um processo judicial para retificar seu nome de registro.

Ela explica que a importância de ter esse direito reconhecido vai além de apenas um nome de preferência, e tem a ver com o reconhecimento da sua identidade. "Eu me sinto um pouco violentada [quando usam o nome de registro], porque não sou eu, entende? Aquele nome não me identifica, não sou eu."

No dia-a-dia, a questão do nome de registro provoca constrangimentos sempre que ela precisa enfrentar alguma burocracia. "É bastante complicado, quando você vai ao banco fazer um pagamento, e tem que dar documento, e a pessoa te chama de senhor E eles fazem questão de botar ênfase no nome. 'Senhor não sei o quê'. Você sente como se fosse uma agressão. Muita gente usa o nome de registro para te diminuir, para dizer que você não é isso que você está dizendo que é. 'Você é fulano. Você não é Maria, você é José', explicou a jovem, que atualmente é colunista sobre temas de educação em uma revista on-line voltada a meninas adolescentes.
Fonte: G1

 

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