sábado, 28 de junho de 2014

Um mito chamado Stonewall



Judy Garland
Publicado em 20 de março de 2014 por WALTER SILVA

O relato padrão tem início quando a polícia invadiu o bar,em  Greenwich Village,convencionalmente descrito como um santuário para lésbicas, bichas pintosas, drag queens,pessoas negras, travestis e transexuais. Nessa noite de 28 de junho,os frequentadores choravam o luto pela diva Judy Garland.

A truculência dos policiais provocou o revide; alguém(possivelmente Marsha Johnson, ativista transgênero) jogou um copo contra um espelho, abrindo assim o ” movimento pelos direitos civis LGBT”. Essa versão da história de fato  é a mais frequente no imaginário mainstream LGBT,a despeito da acusação de que se trata de uma variante incomum,marginalizada e invisibilizada.Lembro-me da primeira vez que li sobre isso;em meados dos anos 90, na revista OK Magazine,voltada para o público gay,era exatamente assim,há vinte anos,que descreviam os eventos de  Stonewall.O documentário Stonewall,de 1995,dirigido por Nigel Finch(vítima de AIDS no mesmo ano),da mesma forma apresenta a revolta de 69 como uma rebelião transgênero.

É preciso que se diga que em vão se tentou estabelecer a veracidade histórica da conexão entre a morte de Judy Garland e os motins; trata-se de uma piada e zombaria sobre os acontecimentos que  terminou por virar lenda urbana,e então passou à ganhar status de verdade.A suposição de que o funeral de Judy Garland reuniu pela ”primeira vez” uma grande quantidade de homossexuais e outros ”desviantes”,instigando neles a consciência de grupo é falsa também,como veremos.Absolutamente nenhuma testemunha ocular presente  nos motins menciona a morte de Judy Garland ou dá alguma importância a isso;de acordo com David Carter em ”Stonewall: The Riots that Sparked the Gay Revolution”,o único documento histórico que faz uma ponte entre os funerais de Judy Garland e Stonewall é uma peça escrita na coluna de Walter Troy Spencer,heterossexual homofóbico que chamou os motins de ”A grande rebelião dos viados”; ele ridicularizou o ocorrido,atribuindo à morte da diva  o catalizador dos conflitos,numa flagrante insinuação de futilidade e despolitização da comunidade LGBT. A despeito de tudo,na linha de frente da rebelião encontravam-se jovens moradores de rua,um público que  certamente estava mais preocupado em sobreviver do que ouvir os discos de Judy Garland,reverenciada entre gays mais velhos de classe média.

Não é exagero  concluir que os esforços de ativistas  pioneiros anteriores à ”revolução que deu início” ao movimento LGBT é que são desconhecidos do grande público e eles agora quando muito chamados de covardes,assimilacionistas e aproveitadores da fama de Stonewall, que é  a ”combustão espontânea” de um movimento que assoma no vácuo.Considere o exemplo na declaração dada ao The New York Times, pelo autor de  Making Gay History,Eric Marcus ,em junho de 2010; ele disse que se atualmente as pessoas se referem a ”estar no armário” e a ”sair do armário”,antes de Stonewall,TODOS viviam no armário.

Sociedade Matachine Anos 50



A trupe dos mascarados

Em 11 de novembro de 1950,uma geração antes de Stonewall, não obstante,já havia sido fundada a Sociedade de Mattachine, em Los Angeles, uma das primeiras organizações de defesa dos direitos civis de pessoas consideradas desviantes sexuais na América, por Harry Hay, um homem gay do partido comunista; romântico e revolucionário,gostava de exibir elegante adereço feminino no vestiário (quando ainda era muito perigoso fazer isso) resultando lamentável sua imagem ter sido erroneamente considerada  paradigma de domesticação,Hay é também o primeiro líder das ”Radical Faeries”,grupo pagão que tradicionalmente rejeita a heteronormatividade. Entre os Matachinos  pioneiros estavam seus amigos Gernreich e  Dale Jennings, o casal Bob casco e Chuck Rowland. James Gruber e namorado Konrad Stevens entraram no ano seguinte. Muito antes disso, na Chicago dos anos vinte, a Society for Human Rights inaugurava na América o movimento pelos direitos civis de gays,cujo objetivo declarado era ”combater os preconceitos públicos”, inspirando-se  tal como Harry Hay,posteriormente,em Magnus Hirschfeld, o verdadeiro fundador do movimento LGBT, em fins do século 19, na Alemanha. Hirschfeld enfrentou o regime nazista e seu aliado,a igreja cristã,duas forças Gaylesbitransfóbicas mais poderosas que um bando de policiais numa blitz de um bar obscuro possivelmente tentando flagrar contrabando de drogas(o interesse dos policiais em Stonewall Inn deve-se aos proprietários mafiosos,ao invés da clientela LGBT).A society for human rights foi idealizada por Henry Gerber,imigrante alemão radicado nos EUA,e era presidida pelo clérigo afro americano John T. Graves; o grupo editava um períodico chamado” Friendship and Freedom” a primeira publicação gay dos Estados Unidos da América.Gerber foi preso acusado de obscenidade,junto com vários diretores,e sua defesa lhe custou todas as economias da vida,perdeu o emprego nos correios e a Sociedade foi desmantelada.



”We must learn that being a person is more important than being either man or woman, male or female”


Virgínia Prince

No ano de 1952,dois anos após Matachine,Virgínia Prince, pessoa transgênero, publicava a sua Transvestia, marcando o início do movimento trans nos EUA;em 1961  fundou a primeira organização, the Hose & Heels Club.

Virgínia Prince


Ela nasceu em Los Angeles em 1912, e começou a  se vestir com roupas femininas com a idade de doze anos. Antes da transição Prince ganhou um doutorado em farmacologia na Universidade da Califórnia em São Francisco, em 1939, e mais tarde lecionou lá. A revista Transvestia foi editada por ela até 1980 e depois vendida para Carol Beecroft. A Carreira de Virgínia no ativismo transgênero se intensificou em 1961, quando ela foi processada por distribuição de ”materiais obscenos” através do correio dos EUA(os materiais na realidade eram correspondências entre pessoas transgênero).Recebeu liberdade condicional e foi proibida de usar roupas femininas.O  Advogado dela pediu permissão legal para ela se vestir conforme sua percepção de gênero com a finalidade de realizar apresentações educacionais. Prince começou a viver em tempo integral como uma mulher em 1968, com a idade de 55 anos.Morreu em 2009.

As filhas de Bilitis

Em 1955 foi a vez do casal Dorothy Louise Taliaferro “Del” Martin e  Phyllis Lyon Ann estabelecerem a primeira organização lésbica americana,as ”Filhas de Bilitis”,inspirando-se na Matachine,oferecendo uma possibilidade de socialização lesbiana e resistência à opressão daqueles dias.As filhas de Bílitis posteriormente foram boicotadas pelo movimento nacional feminista.

Fundadoras das Filhas de Bilitis


Na sombra dos pioneiros

À parte disso tudo,é notável que em outras cidades americanas homens gays já  marchavam antes de Stonewall na frente da Casa Branca por direitos civis, já realizavam piquetes,promoviam interdições a produtos de empresas homofóbicas e editavam uma revista nacional (The Advocate)desde 1967.Entre os dias 24 e 30 de agosto de 1960,várias organizações homossexuais se reuniram em Kansas, numa coalizão de mais de vinte grupos gays; a Conferência norte americana de Organizações homófilas (NACHO)  buscava o fim da discriminação com ajuda da educação, ações legais e Lobby junto ao congresso numa estratégia de integração gay à sociedade. O comitê da juventude do NACHO apresentou sua própria mensagem, insatisfeito com a abordagem mais branda,produzindo um manifesto radical que revela já uma preocupação com interseccionalidade:

”Nós vemos a acusação contra a homossexualidade como parte de uma tentativa geral de oprimir todas as minorias e mantê-las impotentes. Nosso destino está ligado a essas minorias; se os campos de detenção são preenchidos amanhã com negros, hippies e outros radicais, não vamos fugir desse destino, todas as nossas tentativas de distinguir a nós mesmos a partir deles, são,não obstante, inúteis. A luta é comum,portanto, trará triunfo comum … Somos aliados de todos os envolvidos em lutas por direitos civis; todos aqueles que são “vítimas da opressão e preconceito … Apelamos a esses grupos para nos dar o seu apoio e incentivar a sua presença junto de NACHO e o movimento homofílico em geral … [Nosso inimigo comum é um]” sistema governamental implacável, repressivo;a religião muito organizada, negócios e a medicina “e” não serão movidos por apaziguamento ou apelos à razão e da justiça, mas apenas pelo poder e força … O movimento homofílico deve rejeitar totalmente a guerra insana no Vietnã e recusar-se a incentivar a cumplicidade na guerra e apoiar a máquina de guerra, o que pode se voltar contra nós. Nós nos opomos a qualquer tentativa por parte do movimento para a obtenção de autorizações de segurança para os homossexuais, uma vez que estes contribuem para a máquina de guerra … O movimento homofílico deve se engajar na luta política contínua em todas as frentes”

Fora de Nova York, de acordo com Stephen Murray no seu livro American Gay, ativistas LGBT deram pouca atenção ao motim; somente durante as paradas anuais do orgulho nos anos 70 Stonewall irá desfrutar da aura mística que carrega hoje,objeto de disputas internas de poder.Historiadores debatem o real valor político das manifestações de rua pós Stonewall, se perguntando se as políticas de base funcionaram melhor que as passeatas do orgulho.Os motins de 1969 não eram ações politicamente organizadas;o bar Stonewall Inn não era a sede de qualquer movimento político contra cultural,nem de comitês de resistência radical.

Provavelmente não teria acontecido a rebelião se gerações de pioneiros pré Stonewall não houvessem confrontado a homofobia e transfobia de forma cada vez mais ousada e organizado um discurso sobre direitos civis LGBTs dentro de uma sociedade heteronormativa.A  Matachine é mencionada hoje em alguns círculos de ativistas pós modernos  como uma ”sociedade de homens brancos” e seus membros apontados como pessoas de classe média,numa tentativa óbvia de fazer parecer que era um grupo de homens privilegiados;ressalte-se que esses homens brancos e classe média foram repetidamente discriminados,no contexto da época, pelo estado,pela igreja,pelo movimento negro,pelo movimento feminista,pelo comunismo e pela classe burguesa,diga-se de passagem; após fundar a Sociedade Matachine,Harry Hay foi rápida e rudemente expulso do partido comunista.Um dado sintomático;Christine Jorgensen,mulher transexual que ficou famosa na mídia nos anos 50 devido à sua terapia de transição hormonal e redesignação genital,enfaticamente afastou qualquer ligação da sua pessoa com desviantes sexuais,e no processo, descreveu a orientação sexual gay como ”uma horrível doença da mente”,colocando-a sob a pior luz possível, na sua autobiografia comentou que a homossexualidade era algo profundamente estranho para ela,e em contraste com sua moralidade e convicções religiosas( Jorgensen,”Christine Jorgensen”) .O senso comum mainstream retratava a transição de Christine como uma façanha heroica,e alguns viam na ”mudança de gênero” (sic) uma solução possível para o ”problema” da homossexualidade.A imprensa do período não economizava nos elogios à bravura e determinação de Jorgensen,se referindo ao seu passado como soldado do exército,e sua história circulou amplamente  atrelada a valores nacionalistas e uma identidade americana moderna.A aparência elegante e a beleza refinada  de Christine fizeram dela uma celebridade da mídia comercial e a sua heterossexualidade foi inúmeras vezes defendida e realçada(notavelmente,antes da transição e depois da transição).Em um artigo chamado “Parents Praise  Bravery,”a mãe de Jorgensen declarou que a filha havia sido ”um menino normal que namorava meninas” antes da transição.Após a transição  a imprensa diligentemente trabalhou para enfatizar sua heterossexualidade vinculada agora à identidade feminina (Meyerowitz, ”How Sex Changed”).

Os relatos das testemunhas oculares dos eventos ocorridos em Stonewall são diversificados,contraditórios e existem poucas fotos e nenhuma filmagem.Há reivindicações de participação de pessoas que nunca estiveram lá. Murray diz que a clientela de Stonewall era formada basicamente por homens brancos de classe média, frequentado por poucas drag queens e travestis, algo confirmado por Sylvia Rivera, pioneira na luta pelos direitos  civis das pessoas transgênero,que afirmou ter estado  presente na noite do conflito:

”Aquele não era um bar para drag queens.

As pessoas continuam insistindo e dizendo que era.

Foram  autorizadas a entrar no bar somente poucas drags”

(Entrevista concedida a Eric Marcus para o livro Making History).

Então,a dar crédito a tais relatos, basicamente, nós temos um motim,provocado por pessoas transgênero em um bar frequentado em sua maioria por homens gays cisgênero de classe média? a história fica ainda mais obscura,pois,de acordo com o historiador David Carter,Sylvia Rivera,uma figura central para a rebelião, não esteve em Stonewall naquela noite,embora ele inclua a  participação de Marsha Johnson nesses conflitos;aliás Marsha ,companheira de quarto de Sylvia, contou a Randy Wicker que Sylvia adormeceu no Parque Bryant depois de uma dose de heroína na noite da eclosão dos tumultos.O dramaturgo e ativista Doric Wilson também afirma que Sylvia não estava lá.David Carter apontou contradições nos depoimentos de Sylvia a respeito da sua participação em Stonewall; em um relato ela diz que aquela foi a primeira vez que esteve naquele bar,em outro ela diz que esteve lá muitas vezes antes da rebelião.Ela  também informou a Martin Duberman que foi ao bar naquela noite comemorar o aniversário de Marsha,mas Marsha nasceu em agosto, não em junho(Duberman é um historiador que acredita que Sylvia esteve nos motins).

Voltando ao início do movimento pelos direitos civis Gays nos EUA; no inverno de 1950,em Los Angeles,cinco homens gays se juntaram ,inspirados na lendária fraternidade secreta  Société Mattachine,trupe de mascarados na França Medieval,que viajava de aldeia em aldeia,denunciando injustiças sociais por meio de teatro e baladas.No mesmo ano, o Senador Wherry declarava que não era possível distinguir homossexuais de subversivos,porque um homem de baixa moralidade é  sempre uma ameaça ao governo.

O grupo criou um programa abrangente de enfrentamento político e resistência à opressão; foi assim que em 1951 surgiram as reuniões de discussão,proporcionando a gays e lésbicas a oportunidade de compartilhar abertamente os seus sentimentos,pensamentos e um senso de identidade comunitária.Ao longos dos próximos anos as reuniões aumentaram bastante em número de participantes,e logo se espalharam para outros estados americanos.Geraldine Jackson, membro,revelou que “as pessoas foram capazes de florescer e ser elas mesmas”.Em 1952 a Sociedade se engajou numa primeira ação política; naquela primavera um membro fundador,Dale Jennings, foi preso em Los Angeles, acusado de ”comportamento lascivo”  e o grupo decidiu mobilizar a comunidade e desafiou o caso nos tribunais.Angariando fundos,publicando boletins e distribuindo folhetos,contrataram um advogado.O júri não conseguiu chegar a um veredito, Jennings se declarou homossexual e afirmou que não era culpado de nada,e o caso foi arquivado.Um gay notório havia sido absolvido no tribunal. Em 1953 Matachine deu um passo mais ousado; enviou questionários aos candidatos políticos locais,solicitando apoio às questões dos direitos civis gays.Harry Hay chegou a perguntar abertamente ao vice-presidente Henry Wallace, que era o candidato do Partido Progressista,se ele apoiaria uma lei de privacidade sexual,caso ele pudesse ter a certeza de que a maioria dos homossexuais votaria ele.

Infelizmente,aquele era o auge da caça às bruxas promovida pelo  macartismo,e a Sociedade Matachine foi vítima do clima de insegurança generalizado; devido a pressões internas, seus fundadores originais renunciaram neste mesmo ano,e a organização entregue à conservadores.A nova liderança revisou dramaticamente os objetivos do grupo,e tais mudanças tiveram um efeito devastador sobre a Sociedade,cuja estrutura nacional foi dissolvida em 1961.

Algumas pessoas apontam a Sociedade Matachine como um bando de gays que se opôs à revolta de Stonewall; entretanto, a Matachine que existia em 1969 já não tinha nada a ver com a Sociedade original e seus princípios, estando essa organização homófila em franca decadência àquela altura.

O pensamento autenticamente transgressor do fundador,Harry Hay, foi essencialmente recusado já a partir de 1954;Michael Bronski resumiu isso no artigo sobre a morte de Hay:  ”A sua visão radical foi capturada em um manifesto onde ele escreveu defendendo corajosamente que os gays não eram como os heterossexuais.  De fato, Hay insistia, os homossexuais dispunham de uma cultura única a partir da qual os heterossexuais poderiam aprender muito. Essa noção estava em desacordo decisivo com o ponto de vista apresentado por muitos outros membros Mattachinos: que os homossexuais não devem ser discriminados porque os gays eram exatamente como os heterossexuais”.

Harry Hay,fundador da Sociedade Matachine e Radical Faeries


Referências extraídas de :

Jonathan Ned Katz, Gay American History: Lesbians and Gay Men in the USA

Richard Elkins and Dave King: Virginia Prince: Pioneer of Transgendering

D’Emilio, John (1983). Sexual Politics, Sexual Communities: The Making of a Homosexual Minority in the United States, 1940–1970 

Bronski, Michael (2002-11-07). “The real Harry Hay” . The Phoenix


Matachinos-Membros originais


Fonte: Walter Silva

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