sábado, 24 de maio de 2014

Cursos de medicina no Brasil falam pouco sobre orientação sexual

Pesquisa aponta que minoria dos professores de medicina inclui temas como homossexualidade ou violência sexual em suas disciplinas


A maioria dos professores das faculdades de medicina brasileiras aborda temas relacionados à sexualidade em algum momento do curso. Eles, no entanto, destacam principalmente os aspectos biológicos e orgânicos, como as doenças sexualmente transmissíveis. Apenas uma pequena parte inclui assuntos como homossexualidade, violência sexual e homofobia nas disciplinas. 

Essa é a constatação de uma pesquisa feita na Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e publicada na edição deste mês da revista científica The Journal of Sexual Medicine. O estudo mostra que apenas 15% dos professores de medicina do país falam sobre homofobia em algum momento do curso, enquanto 88%% abordam o impacto das doenças e hábitos sexuais na vida dos pacientes.

Os autores do trabalho submeteram um questionário a 207 docentes de 110 faculdades de medicina ao redor do Brasil. A maioria dos entrevistados ministrava aulas de ginecologia, urologia, psiquiatria e psicologia médica, que são as principais disciplinas que abordam a sexualidade nas universidades. 

Dos entrevistados, 93,5% afirmaram tratar de sexualidade em suas aulas em algum momento do curso — principalmente no terceiro e quarto anos e em disciplinas clínicas, como ginecologia ou urologia. Por outro lado, apenas 3% ministram uma disciplina específica sobre sexualidade. 

Assuntos — Quando questionados sobre quais temas relacionados à sexualidade incluíam em suas aulas, os professores disseram abordar principalmente aspectos biológicos. A maioria tratou do impacto de doenças na vida do paciente (88%); mecanismos do corpo envolvidos na relação sexual (78%); disfunção sexual (76%); e doenças sexualmente transmissíveis e aids (66%). A minoria trata de homofobia (15%); bissexualidade (36%); homossexualidade (47%) e violência sexual (47%). 

"Encontramos um número alto de professores que falam sobre sexualidade em suas aulas. Isso foi uma surpresa para mim. Eu imaginava que o assunto fosse menos abordado", disse ao site VEJA a coordenadora do estudo, Andrea Rufino, professora de ginecologia e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Saúde da Mulher da Uespi. "Mas o olhar dos professores para a sexualidade ainda é muito biológico e pouco voltado para aspectos culturais e sociais do tema."

Diálogo — Segundo Andrea Rufino, não abordar esses aspectos da sexualidade nos cursos de medicina pode ter uma série de impactos negativos. "Os alunos saem da faculdade despreparados para conversar com seus pacientes e se sentem constrangidos em perguntar sobre a vida sexual deles. Os cursos de medicina devem ensiná-los desde o início a abordar o tema de uma forma tranquila e acolhedora", afirma.

Muitas vezes, a orientação sexual do paciente ou o fato de ele já ter sido vítima de violência sexual ou homofobia podem ser determinantes na hora de um médico aconselhar um tratamento, indicar uma abordagem para prevenção de doenças ou solicitar determinados exames. "Por exemplo, a forma de conduzir um exame ginecológico pode ser diferente entre uma paciente que mantém relações sexuais com outra mulher em comparação a mulheres que se relacionam com homens ou que já tiveram filhos", diz Andrea.

"O médico precisa considerar a possibilidade de o paciente não ser heterossexual. Se o médico não pergunta ou não deixa o indivíduo à vontade, o paciente acaba não falando sobre sua orientação sexual."

Atendimento — Outra situação em que a sexualidade deve ser abordada no consultório médico é quando o profissional recomenda o uso da pílula anticoncepcional. "Poucos professores ensinam a seus alunos sobre o significado cultural da pílula. Eles devem dizer que o método representa um direito reprodutivo e sexual da mulher, que a deixa livre para decidir quando quer engravidar", diz. "Muitas jovens têm medo de usar anticoncepcional ou possuem tabus em relação à pílula."

Segundo a pesquisadora, sociedades médicas internacionais recomendam que a sexualidade seja abordada durante todo o curso de medicina e por disciplinas variadas, que devem comunicar-se entre si. "É preciso falar de todos os aspectos da sexualidade, desde a sexualidade em crianças e adolescentes até a orientação sexual dos pacientes. Isso diminuiria o preconceito e melhoraria o acesso de grupos minoritários, como os homossexuais, a um atendimento médico adequado", diz.

Fonte: VEJA

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