sábado, 26 de abril de 2014

Peça retrata as diversas fases de uma relação amorosa

A relação afetiva entre dois homens que vivem juntos há sessenta anos é exposta com delicadeza no espetáculo teatral Ou você poderia me beijar, cuja temporada no Teatro do Núcleo Experimental, na Barra Funda, Em São Paulo, chega ao final neste domingo. A peça pode ser vista hoje e amanhã, às 21h; e no domingo, às 19h. Os ingressos custam R$ 40 (inteira) e podem ser adquiridos antecipadamente no sitewww.compreingressos.com.

A obra do autor britânico Neil Bartlett, inédita no Brasil, mostra as dificuldades enfrentadas por um casal homoafetivo que, depois de sessenta anos, precisa aprender a se separar: um deles está doente, à beira da morte, e a presença do Mal de Alzheimer, que esvazia as memórias daquele que está partindo, torna a despedida ainda mais dramática.

Indicado entre os dez melhores espetáculos Em cartaz na cidade de São Paulo pela Revista Veja SP, o espetáculo tem a assinatura de dois premiados artistas sorocabanos: o diretor Zé Henrique de Paula e a diretora musical Fernanda Maia, que executa a trilha ao vivo Em um piano digital, pontuando a encenação com o clima de delicadeza que conduz os personagens. "Quando a trilha é executada ao vivo no espetáculo, ele pode seguir o movimento dos atores, a música respira com eles. A trilha funciona como uma janela para um conteúdo mais emocional do espetáculo, ajuda narrativamente porque comunica o indizível, coisas que as palavras não dão conta de dizer", comenta Fernanda Maia.

O diretor Zé Henrique de Paula destaca que questões delicadas como a despedida, o progresso do Mal de Alzheimer e a chegada da morte são elementos que fazem parte de uma história universal. "A peça é um jogo de lembranças e de projeção de vida futura. É uma teia de espelhos. Mas esse conjunto de elementos e essa dificuldade de encarar o fim do relacionamento após tanto tempo junto pode acontecer com qualquer casal, seja ele hétero ou homossexual", pontua.

Trazendo o casal de homossexuais idosos à condição de protagonistas do drama da morte iminente, a peça abre seu leque de discussão para outros âmbitos, conforme elenca Fernanda Maia. "Antes de qualquer coisa, são duas pessoas atravessando momentos diferentes de um relacionamento, a fase do apaixonar-se, as crises de uma relação, a partida de uma pessoa com quem se conviveu durante muito tempo são temas que nos atingem a todos independente de orientação sexual."

Embora o espetáculo contribua com uma profunda reflexão sobre os preconceitos ainda enfrentado por homossexuais, Zé Henrique afirma que esta não é a essência da peça. "Mas é pano de fundo muito importante", diz. Aliás, o texto aborda questões mais específicas sobre direitos civis e união de pessoas do mesmo sexo. O elemento central da peça, defende Zé Henrique, é um personagem invisível chamado Tempo. "Interessante tentar entender como a passagem de tempo solidifica o amor de duas pessoas mas, ao mesmo tempo, por mais paradoxal que possa parecer, às vezes isso [o tempo] fragiliza o amor exatamente por conta dos problemas da velhice Em si." 
O texto original de Bartlett, que há mais de duas décadas milita na luta pelos direitos dos homossexuais, foi escrito originalmente para ser encenado com bonecos. A versão brasileira, no entanto, é apresentada por seis atores que interpretam o casal Em três momentos da vida, mas de forma não cronológica. Os veteranos dos palcos e da televisão Roney Fachinni e Claudio Curi, na velhice; Marco Antonio Pâmio e Rodrigo Caetano, na maturidade; e Thiago Carreira e Felipe Ramos, na juventude. A atriz Clara Carvalho interpreta todas as faces femininas da narrativa. 

Numa sociedade Em que cada vez mais os direitos civis dos homossexuais entram na pauta diária das discussões, a peça do Núcleo Experimental também coincide com o momento Em que o Brasil registra o primeiro beijo gay da história da televisão. Zé Henrique de Paula ressalta que no teatro, historicamente vanguardioso Em diversas questões sociais, esse "tabu" foi superado há muito tempo. "Há peças de autores contemporâneo ao Shakespeare que já abordavam todas essas questões. Acho que a televisão vai fazendo progressos Em um ritmo menos veloz, mas também é importante", avalia. 

Para o diretor, a reflexão sobre temas que visam elevar o nível de conscientização e tolerância da sociedade é um dever do teatro. "O que a gente tem que fazer é tentar conscientizar as pessoas que preconceito e intolerância são passos para trás", defende, anunciando que o próximo espetáculo da companhia intituladoPreto no branco vai levar ao palco uma profunda reflexão sobre o racismo.

Em busca de recursos
Embora seja um sucesso de crítica e público, a produção do espetáculo busca recursos para prorrogar a temporada por mais dois meses. "Nossa sala é pequena, contando apenas com 60 lugares e, apesar do sucesso de público, a quantia arrecadada com a bilheteria não cobre os custos de manutenção da produção e muito menos do nosso teatro", justifica Zé Henrique. 

Habituados Em montar espetáculos com dinheiro obtido pelas "vias tradicionais", isto é, oriundos de patrocínios de empresas e editais públicos de fomento, pela primeira vez a Cia. Teatro Experimental busca colaboração através do Catarse, um sistema de financiamento coletivo. Caso a meta de R$ 30 mil seja atingida dentro do prazo de 13 dias, o espetáculo se manterá Em cartaz por mais onze semanas. Algumas quantias pré-estipuladas dão direito a recompensas que vão desde a menção do nome no site da companhia até sessão exclusiva para convidados do doador e bate-papo com o elenco. Se a meta não for cumprida, todo o dinheiro arrecadado é devolvido aos que se dispuseram a colaborar. 

O diretor sorocabano Zé Henrique de Paula detalha que a companhia teve a ideia de buscar apoios individuais, na forma de doação, após perceber que a prática é comum nos teatros de Londres. "Esperamos que essa iniciativa ajude a abrir uma nova visão sobre a interação entre público e teatro, tanto no nível de espectador, quanto do público apoiador e patrocinador." Para saber como doar, acesse: www.catarse.me/ pt/ouvoce.

Serviço

O espetáculo Ou você poderia me beijar será apresentada hoje e amanhã às 21h e domingo às 19h. Os ingressos custam R$ 40 (inteira) e podem ser adquiridos antecipadamente no site www.compre ingressos.com. O teatro do Núcleo Experimental fica na rua Barra Funda, 637, Barra Funda, São Paulo. Mais informações pelo telefone (11) 3259-0898 ou pelo site www.nucleoexperimental.com.br.


Fonte: Cruzeiro do sul

Nenhum comentário:

Postar um comentário