domingo, 12 de janeiro de 2014

Narrativa busca iniciar debates sobre sexualidade

CARLOS ANDREI SIQUARA

Em 2011, quando começou a escrever “Malu, Memórias de Uma Trans”, Cordeiro de Sá, tinha em mente que não queria produzir uma história em quadrinhos voltada exclusivamente para os leitores LGBT. Ele mirou um público amplo, que poderia colocar em xeque opiniões e perspectivas.

“Minha grande preocupação era não parecer que estava querendo dizer algo para quem já entende do assunto. Eu não precisava falar do tema para as travestis porque elas mesmas já fazem isso. Eu quis me aproximar principalmente dos leitores da classe média que ainda têm um preconceito muito grande contra essa população”, revela Cordeiro de Sá.

Para ele, o livro, que saiu em 5.000 exemplares e terá novo lançamento no dia 18 de janeiro, no Museu da Diversidade, em São Paulo, serve como um pontapé inicial para a existência de diálogos sobre o assunto. “Como esse tema me inquieta bastante, eu tentei levar para o texto e para os desenhos situações que mostram como a personagem se desdobra para lidar com seus problemas, mas, ao mesmo tempo, sente raiva, deseja, chora, como qualquer outra pessoa. Qual o problema se eles são diferentes? Para começar essa conversa, no entanto, o texto não poderia ser agressivo”, acrescenta o autor.

Dessa forma, ele diz aprofundar algumas questões, utilizando estratégias que fazem o trabalho palatável aos mais maduros ou jovens. “Eu escolhi trabalhar com desenhos semelhantes aos cartuns para que o traço ficasse mais leve. Eu busquei algumas linhas que são as mesmas vistas em desenhos animados que estão na crista da onda, como ‘Hora de Aventura’, ‘Apenas Um Show’, entre outros. São criações que curto muito. Além disso, eu quis também utilizar a fotografia para que o leitor, no momento em que visse o cartum, fizesse uma conexão direta com a realidade”, detalha ele.

Embora esteja ancorada nessa referência direta com situações vivenciadas no presente, a revista, de acordo com Cordeiro, não ambiciona resolver todas as questões que envolvem a temática. Mas, ao ressaltar aspectos distintos da vida de uma transexual, ao longo das páginas, ele observa ser possível que a obra sirva como material importante para sustentar debates.

“A ideia não é abordar tudo, mas eu acredito sim que várias partes de Malu podem ser usadas para alimentar uma discussão diferente. Por exemplo, no início, encontramos a personagem em seu embate com a família. Depois, sofrendo como vítima de violência na escola, até o namoro escondido na adolescência, sem deixar de lado o dilema da aceitação. Eu imaginei cada página como uma possibilidade de leitura autônoma, como se fossem capítulos diferentes”, afirma o quadrinista.

Quanto a possibilidade de continuar esse trabalho, ele diz que não desenvolveu “Malu” imaginando que o livro se desdobraria em série. No entanto, Cordeiro relata o interesse em abordar outros ângulos e personagens que poderiam ganhar mais espaço em futuras edições.

“Eu poderia contar parte dessa história pela perspectiva da mãe, ou até abordar uma amiga de Malu que tem outra história interessante. As possibilidades são amplas. No momento, eu estou com o tempo bastante limitado. ‘Malu’ mesmo saiu em dois anos justamente porque eu trabalhei no intervalo de outros projetos”, declara.

Fonte: O Tempo

Nenhum comentário:

Postar um comentário