domingo, 31 de março de 2013

Travesti rompe barreira do preconceito e faz carreira de professor em Campina Grande


Transitar com desenvolturas no universo gay, cujo preconceito e discriminação são dolorosas pedras no sapato de quem assume a homossexualidade, foi o primeiro passo para o travesti Luciano Lopes Medeiros, 40, conseguir se firmar no exigente mundo acadêmico, impondo respeito e credibilidade na sagrada missão  de educar.

Seu sonho sempre foi seguir carreira na área da saúde, mas ao freqüentar o curso técnico, o equivalente ao ensino médio, apaixonou – se pelas ciências exatas, tornando–se, portanto, um aplicado aluno nas temidas disciplinas física e matemática.

No entanto, a atmosfera fria e calculista do ambiente dos números não lhe fez perder a ternura de cuidar de gente. Resolveu então unir o útil ao agradável e formou–se professor de matemática.

“Quis ir para sala de aula, tentando ser um formador de pensamento, um gerador de novas idéias, na verdade para quebrar barreiras”, observa Luciano que começou a carreira acadêmica em 2001 e hoje garante que conseguiu vencer muitos obstáculos em nome da educação.

Graças à aceitação dos alunos, é sempre mestre de cerimônia nos eventos da escola

Professor de matemática numa escola do ensino fundamental em José Pinheiro, populoso bairro de Campina Grande, maior cidade do interior da Paraíba, o rapaz de aparência feminina sempre teve consciência dos desafios que enfrentaria para se impor como docente, mas conseguiu tirar de letra os percalços  naturais de quem se propõe a quebrar paradigmas.

Embora lecione para crianças e adolescentes de faixa etária entre dez a dezoito anos, Luciano, nome masculino que faz questão de manter, inclusive no seu perfil no facebook, garante que nunca foi vitima de nenhuma situação constrangedora entre os alunos, salve nos primeiros dias de aula, quando alguns lhe perguntam se o seu cabelo é natural.

“Eu conquistei o respeito dos estudantes e dos pais porque todos me viram crescer na comunidade e sempre vou à escola com roupa masculina calça jeans, camiseta e tênis, além do cabelo preso”, conta ele, argumentando que a convivência com o alunado é tão saudável que sempre é mestre de cerimônia de eventos na escola, inclusive na solenidade que abre o não letivo. “Fico feliz porque sempre no primeiro dia de aula, quando é anunciado o meu nome, as turmas vibram e aplaudem porque vou ser o seu professor”.

Além de ganhar a aprovação de quem está aprendendo os primeiros ensinamentos, ele se sente realizado também na educação de jovens e adultos, uma das suas especializações. “Eu adoro a Educação de Jovens e Adultos porque tem alunos que são carentes. Eles têm carência de tudo, afeto, elogios e sabedoria. O nosso compromisso é uma visão diferente para educação porque nossas escolas foram criadas no século dezessete e têm que se inovar porque não têm atrativos”.

Sente mais rejeição de professoras, enquanto os colegas homens são indiferentes  

Embora fale com propriedade sobre a questão pedagógica e demonstre domínio do conteúdo que leciona, o mesmo travesti que comemora a aceitação por parte dos estudantes, é o mesmo que lamenta o preconceito vindo de colegas professoras.

“Os professores homens são indiferentes a minha condição, mas as professoras me tratam com certo distanciamento”, lamenta, lembrando que certa vez levou umas fotos suas vestido de mulher, já que na escola usa trajes discretos, e as educadoras começaram a olhar o álbum e rapidamente já lhe devolveram.

E qual a sua reação diante do menosprezo? “Não quero na minha vida filosofias complicadas, religiões mentirosas, pessoas desumanas. Busco simplicidade e respeito a quem adotei como amigos” desabafa o moço que dos planos de atuar na área de saúde lhe restou apenas a vocação para cuidar de cachorros abandonados.

“A última cadela que adotei tem o nome de vitória porque venceu muitos sacrifícios na rua, inclusive um atropelamento de carro”, lembra o professor que aprendeu nos livros e na vida, que para vencer assim como seus animais de estimação, é preciso muita força de vontade.

“Por isso venci! comemora o rapaz que chegou a planejar a cirurgia de mudança de sexo, mas foi barrado no exame psicológico. Ele é um retrato fiel do pensamento de Euclides da Cunha no célebre Livro Os Sertões, quando reconhece que o nordestino é antes de tudo um forte.


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