quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Britânicos dão o primeiro passo para legalizar casamento homoafetivo


(Folha de S.Paulo) A Inglaterra abriu caminho ontem para legalizar o casamento de pessoas do mesmo sexo. O projeto do governo David Cameron foi aprovado com ampla maioria em seu primeiro teste na Câmara dos Comuns: 400 votos a 175.


A proposta dividiu o Partido Conservador do primeiro-ministro, que sofreu duras críticas de aliados tradicionalistas e da Igreja Anglicana. Ele não participou do debate no Parlamento para tentar esfriar a crise na legenda.

O texto ainda pode sofrer mudanças e terá que passar por outra votação. Ele só vai virar lei se também for aprovado na Câmara dos Lordes.

Mesmo assim, a votação de ontem foi considerada histórica por representantes do governo e da oposição, por ativistas do movimento gay e pela imprensa britânica.

De acordo com a BBC, cerca de 140 conservadores, mais da metade dos presentes, teriam votado contra a proposta, na maior rebelião já vista pelo governo atual.

Longe da tribuna, Cameron disse a emissoras de TV que a aprovação do casamento de homossexuais vai fortalecer a sociedade britânica.

"Os gays também devem poder se casar. É uma questão de igualdade, mas também é algo que vai tornar a nossa sociedade mais forte. É um grande passo à frente para o nosso país", afirmou.

O vice-premiê Nick Clegg, do Partido Liberal-Democrata, disse que a votação entrará para a história. "Vamos olhar para trás e ver o dia de hoje como um marco pela igualdade na Grã-Bretanha."

O líder da oposição trabalhista, Ed Miliband, disse que o país deu um "passo importante na luta pela igualdade".

"ORWELLIANA"

Na Câmara dos Comuns, deputados conservadores se revezaram nas críticas à proposta. A maioria dos discursos sustentou a tese de que o casamento é uma instituição criada para unir homem e mulher com objetivo de procriação, o que não poderia ser realizado por homossexuais.

O deputado Roger Gale acusou o governo de usar tática "orwelliana" para alterar o sentido da palavra casamento. No livro "1984", de George Orwell, um regime totalitário manipula o sentido das palavras para induzir a população a concordar com medidas que vão prejudicá-la.

O parlamentar sugeriu que o próximo passo seria a legalização do incesto. "Se o governo está levando isso a sério, deveria jogar este projeto fora, abolir o casamento civil e criar uma lei válida para todos, independentemente da sexualidade e do tipo de relação que tenham entre si. Irmão com irmão e irmã com irmã, inclusive", disse Gale.

Os três principais ministros de Cameron não foram ao Parlamento, mas publicaram manifesto a favor do projeto no jornal "The Daily Telegraph", numa tentativa em vão de conter a rebelião aliada.

Pesquisas mostram que a maioria da população britânica aprova o casamento gay, mas não vê o tema como prioritário para definir seu voto nas eleições de 2015. Segundo levantamento publicado no "Sunday Times", 55% aprovam o projeto, com 36% contrários e 9% indecisos.

A maioria (63%) diz acreditar que Cameron não aprova a ideia, mas decidiu endossá-la por motivação política.

O projeto cria a possibilidade do casamento gay, mas não obriga as igrejas a celebrá-lo. A união civil já garante direitos civis aos casais homossexuais desde 2005.

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