sábado, 15 de dezembro de 2012

Primeiro casamento gay da história de Santos acontece em dose tripla


Uma cerimônia realizada na noite desta sexta-feira (14) em Santos, no litoral de São Paulo, oficializou os três primeiros casamentos entre homossexuais na cidade. O ato foi promovido pela Comissão da Diversidade Sexual e Direito Homoafetivo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Santos e celebrado na sede da entidade.

Os noivos, quatro homens e duas mulheres, tiveram a ideia do casamento comunitário ao participar de um programa de televisão que debatia a questão do casamento gay. Eles passaram a semana se preparando para a cerimônia e recebendo os parabéns pelo casamento, que reuniu dezenas de pessoas.

Para Ailton Cardoso da Silva Júnior, o casamento caiu como um carinho após um tapa. Em abril deste ano, ele foi demitido de um emprego em que trabalhava há mais de um ano como professor em um curso de logística por ter aparecido em uma entrevista feita pelo Fantástico, da TV Globo, onde aparecia falando sobre um curso de Drag Queen.

"Eu estava chegando na escola para trabalhar. Ele estava na rua e me chamou. Disse que tinha visto a matéria, que não tinha gostado do meu posicionamento e que eu estava manchando a imagem da empresa. Na mesma hora, ele disse que iria me mandar embora. Falei que não era assim, que a gente tinha que conversar. Num outro dia, ele me ligou me ofendendo, me chamando de veadinho. Daí percebi que o assunto era sério. Alguns colegas estranharam a atitude do dono da escola, porque eu sempre fui muito profissional. Ele foi extremamente rude”, lembrou.

Ailton moveu uma ação trabalhista contra o antigo patrão que, segundo ele, irá responder ainda por assédio moral em uma ação do Estado. Foi a partir desse fato que começou a se envolver com assuntos relacionados ao direito dos gays. Quando soube da possibilidade de se casar, Ailton e o noivo resolveram se unir oficialmente. “Todos os meus amigos encararam a situação de forma muito natural, porque era para onde conduzia o nosso relacionamento”, disse. O casal tem pouco mais de dois anos de namoro.

A mãe de Ailton, que mora em Salvador, na Bahia, assistiu a cerimônia. “A família recebeu a notícia de forma muito tranquila”, explica Damiana Pereira Cardoso, mãe de Ailton. Mesmo com a maioria de apoios, Ailton lembra apenas de um colega que lhe procurou tentando convencê-lo de que a união entre dois homens não é natural. "Ele me disse que o casamento deve ser entre homem e mulher, e eu ouvi numa boa, mas só."

Ana Maria Cartura é amiga de José Lucimar, noivo de Ailton, há 20 anos. Ana foi convidada pelo casal para ser a madrinha no casamento. “Quando ele nos convidou foi uma surpresa. São pessoas maravilhosas, que eu pretendo ter em minha vida para sempre”, conta.

'Não é oba oba'

Rosa Maria Gonzaga Arouche, que têm 40 anos, acrescentou o sobrenome Cavalcante, da sua mulher, que por sua vez assinará Arouche depois do casamento. Dias antes do casamento, ela estava ansiosa com os preparativos. “Está tudo correndo conforme a gente esperava. Para a gente, ver reconhecido um direito tem um sabor a mais. Alguns acham que gays são promíscuos. Infelizmente, alguns comportamentos levam a esse entendimento, mas o sentimento está em primeiro lugar para nós. Temos o companheirismo, a cumplicidade. Estamos felizes e juntas há seis anos”, disse.

Durante os preparativos, Rosa começa a se dar conta da grandeza do ato. “A gente vinha pensando há algum tempo, mas não tínhamos o conhecimento do casamento em si. Quando descobrimos que seria possível, nós decidimos. Queremos mostrar para todos que somos um casal, sem burocracia. Agora podemos provar que vivemos juntas, nos amparar quando for preciso, lá num futuro bem distante". Ela conta ainda que recebeu muito apoio dos amigos, conhecidos e outras pessoas que souberam do casamento. "As pessoas sabem que não é oba oba", afirmou.

Segundo Rosa, o casal não terá lua-de-mel por causa do trabalho, mas tem garantidos três dias de licença matrimônio. “Olha que coisa, não tinha reparado que temos direito a licença de casamento”, conta. O terceiro casal preferiu não dar entrevista à imprensa, tanto nos preparativos quanto no dia da cerimônia.

Direito reconhecido

A cerimônia só aconteceu porque o juiz corregedor Frederico dos Santos Messias assinou no mês de agosto uma portaria que determina que os cartórios da cidade oficializem o casamento de pessoas do mesmo sexo. "O casamento entre homossexuais é algo que já é possível, mas que era muito constrangedor para os noivos, e nem sempre o Ministério Público aprovava. Cada cidade pode baixar sua portaria, mas vejo que o casamento é uma tendência e logo haverá algum movimento para torna-lo permitido no Brasil", disse o juiz, que ressaltou que a norma serve para quem comprovar residência na cidade.

O Supremo Tribunal Federal (STF) já considera constitucional a extensão dos direitos da união estável aos casais homossexuais. Desde então, alguns casos já registrados no Brasil permitiram que o casamento fosse possível a partir da união estável, que servia como começo de prova em um processo para casamento. “Antes as pessoas interessadas em casar tinham que ir até o cartório, pediam o casamento, o pedido ia para o corregedor e era negado. Com a autorização, hoje só é necessário ir até o cartório e aguardar a documentação”, explicou a advogada Rosangela Novaes, Coordenadora da Comissão da Diversidade Sexual e Direito Homoafetivo da OAB-Santos.

O grupo começou com mais pessoas interessadas em participar do casamento coletivo, mas só sobraram três. “Hoje algumas pessoas tem vindo nos procurar, querendo saber se dá tempo para participar do casamento, mas não dá porque tem um período de espera para os documentos ficarem prontos”, contou ela, que incentiva que novos casais se casem. “A gente sempre buscou conquistar o direito, hoje nós temos que efetivar esse direito casando, porque é direito de todos.”

Evandro Costa Pereira, substituto do primeiro cartório de Santos, disse que desde que a portaria entrou em vigor, em outubro deste ano, algumas pessoas tem os procurado perguntando como fazer para casar. “As pessoas estão se mostrando interessadas, mas acredito que com o tempo os casamentos comecem a acontecer”, disse.

O casamento na sede da OAB de Santos ainda contou com uma festa para os noivos, com direito à decoração, bolo, doces, bebidas e fotografia, cedidas por patrocinadores que apoiaram a causa. A instituição ainda aproveitou a ocasião para para lançar a cartilha "A Diversidade Sexual, a Homofobia e suas Consequências".

Fonte: G1

Nenhum comentário:

Postar um comentário