domingo, 25 de novembro de 2012

Sansex: Produtores falam sobre a segunda edição do evento


Nesta terça-feira (27), em abertura no Teatro Guarany, começa a segunda edição da Sansex – Mostra de Cinema e da Cultura da Diversidade Sexual de Santos. O evento segue até o dia 1º de dezembro com uma série de atrações e ocorre, pela primeira vez, dentro da Semana da Diversidade.

Os produtores Ricardo Vasconcellos e Luiz Fernando Almeida falam das dificuldades encontradas para levar o festival ao público, o preconceito ainda existente, o motivo que levou a Sansex a integrar a Semana da Diversidade, entre outros assuntos.

Quais as expectativas para a Sansex desse ano em relação ao público? 

Ricardo Vasconcellos | Nossa intenção sempre foi atrair todos os públicos, conseguir encher os espaços. Arte une para a reflexão e as atividades da Sansex são recheadas de assuntos diversos do universo da sexualidade, o que já promove a curiosidade, e ainda com entradas gratuitas, o que facilita o acesso. Conseguimos reunir todas as possibilidades para o sucesso. A intenção é entreter para ter o conhecimento à causa e compreender, pois assim teremos a vantagem de um aceite tranquilo por mais e mais pessoas, sejam elas do segmento ou não.

Luiz Fernando Almeida | Por incrível que pareça, em nossa primeira edição tivemos desde a cerimônia de abertura, um numero significativo de pessoas fora do movimento LGBT. E acredito que, nesta edição, isso deve se repetir. A Sansex é uma mostra que tem como tema a diversidade sexual e não fala apenas para a comunidade LGBT. Sexualidade é um assunto que envolve todos os seres humanos, independente de nomenclatura. Nosso objetivo é modificar paradigmas e promover discussões sobre a sexualidade humana. Então, todos são bem vindos e devem acompanhar a programação.

Por que este ano o festival acontecerá dento da Semana da Diversidade?

RV | Foi um conquista para cidade, um grande passo e a Sansex não podia estar fora: somos a cultura representada nela, mesmo porque fazemos parte também da história desta criação da semana. As sementes de uma possível ação governamental aconteceram já ano passado durante a primeira Sansex e, assim, durante 2012, foram integrando novos agentes, comissões, grupos e este núcleo sensibilizou os políticos. Assim, deu-se por parte dos vereadores esta lei que oficializa a Semana da Diversidade, este momento de discussão e de conhecimento da sociedade a este segmento tão importante e de respeito humano. Parabéns a todos os envolvidos.

LFA | A Semana da Diversidade agora passa a fazer parte do calendário da cidade de Santos sempre neste período e achamos importante somar ao evento, neste primeiro momento, já que estamos abordando o mesmo tema. Eles ficarão com toda a parte institucional (debates, palestras, ações de conscientização) e a Sansex entrou para agregar valor a esta semana com a programação cultural que vem a ser o foco da nossa Mostra.

Quais as dificuldades em realizar o projeto? Vocês encontram algum tipo de resistência ao tentarem parcerias?

RV | Sempre teremos dificuldades. Não é fácil atrair patrocinadores a esta temática, as leis de incentivo e de fomento são as responsáveis na grande maioria pelos recursos das execuções destas ações a esta área. As parcerias institucionais sempre estiveram presentes e o que nos facilitam as articulações, mas precisamos ir à batalha. A cada parceiro que chega celebramos e damos a garantia que não é só um apoio, mas sim um investimento ao compromisso do respeito humano. Acredito que o artístico é o principal setor que poderá atrair mais investidores e, por isso, temos que ter uma programação diversificada e para todos os públicos.

LFA | Infelizmente ainda lidamos com muito preconceito velado nesta cidade e no país. Este ano temos uma verba menor para a realização do evento. A Sansex foi contemplada no 2º Concurso de Apoio a Projetos Culturais Independentes (Facult) e temos alguns parceiros que nos acompanham desde a primeira edição. Sem eles, tudo ficaria mais complicado. Mas acredito que, aos poucos, as pessoas estão começando a perceber que o tema sexualidade não está restrito a homossexualidade.  Grandes marcas mundiais investem em marketing voltado ao segmento LGBT porque sabem do poder do “Pink Money”, mas isso ainda está caminhando a passos curtos no Brasil. Se a Parada LGBT de São Paulo, que vem a ser o maior evento do segmento, encontra dificuldades pra captar, nós, que estamos fazendo um trabalho que ainda tem uma dimensão menor, certamente também encontramos. Mas creio que isso seja uma questão de tempo.

Ainda há muito preconceito na Baixada Santista? Se sim, o que fazer para diminuir?

RV | Não só a Baixada, mas em todos os locais que não possuem uma integração cultural, e em suas bases educacionais as discussões sobre as relações humanas não são ativas. O convívio a estes assuntos são frequentes em nossa sociedade, portanto, são necessárias políticas públicas que tenham injeções de investimentos de ordens prioritárias: civil e jurídica, podendo assim garantir e dar flexibilidades aos agentes e as pessoas caminharem a direitos igualitários como qualquer cidadão. Santos começa a dar seus primeiros passos – até um ano atrás não tinha nada, nem cultural – com a criação da Semana da Diversidade Sexual, o casamento civil sem necessidade da união civil anteriormente (dia 14 de dezembro serão celebrados os seis primeiros) e o conhecimento das leis contra o preconceito. Mas são poucos ainda que sabem, mas destaca-se aqui o trabalho da Comissão da diversidade da OAB-Santos, que vem realizando a este respeito, principalmente ao uso do nome social pelas Transexuais e Travestis nas repartições públicas. Um passo de cada vez, mas vamos em frente, pois é longa a caminhada para que, ao futuro, não tenhamos mais a necessidade destes artifícios jurídicos e possamos normalmente aceitar o comum a todos.

LFA | Sim, ainda existe muito preconceito na Baixada Santista e no país. Se acompanharmos as estatísticas o tempo todo, ficaremos horrorizados com o numero de homossexuais mortos, agredidos e humilhados diariamente. Esses índices aqui na Baixada são menores, mas estas agressões acontecem sempre. Porem, nem sempre chegam ao conhecimento de toda a população. Existe uma mudança no perfil do gay regional com a virada da década. Hoje ele está mais inserido dentro da sociedade e não precisa ficar restrito a guetos. Ao mesmo tempo, continua sendo apontado, alvo de chacotas e vitima de preconceito velado. Orientação Sexual não define caráter e as pessoas precisam ter consciência disso. Para diminuir o preconceito eu penso que existem dois caminhos. Um é o caminho legal. As autoridades precisam dar suporte à comunidade LGBT com serviços de proteção como Disk Denúncia, apoio policial, entre outras coisas. Quando um gay é agredido, ele raramente vai prestar queixa porque sente-se envergonhado de ir a uma delegacia, por exemplo. Então, com recursos como este, as pessoas teriam mais possibilidade de denunciar o preconceito contra a comunidade. Outro ponto que pode ajudar, acredito que seja o comportamento da comunidade perante a sociedade. As pessoas precisam perder o medo de andar de cabeça erguida. Ninguém deve se esconder por ser gay. Isso não é uma opção. É uma condição. As pessoas nascem assim e não há nada de errado nisso. Se a comunidade LGBT começar a trabalhar sua autoestima, talvez sofra menos com o preconceito. Eu posso estar errado, mas é como eu penso. 

Fonte: Santos Cultural Net

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