segunda-feira, 17 de setembro de 2012

INVISIBILIDADE DA HOMOAFETIVIDADE FEMININA


Trecho de artigo de Diedra Roiz, acerca da invisibilidade das mulheres homossexuais :

“....Sermos aceitas ? A realidade é que precisamos existir primeiro. Exterminar o cruel sofrimente que é se  sentir e ser excluída. Não importa o motivo. Ser um fantasma, um expectro, uma sombra que não tem direitos nem voz ativa pode ser uma violência tão grande ou maior do que ser fisicamente agredida. A invisibilidade mata por dentro. E...quem cala termina consentindo. Como disse Martin Luther King: ‘ O que me preocupa não é o grito dos maus,mas o silêncio dos bons’ Realmente. Porque para construir de fato um mundo melhor, tolerante, sem preconceitos, que aceite cada um com suas particularidades e diferenças, temos que, como disse Gandhi, ‘ser a transformação que queremos no mundo’ “


Pois é, a Diedra tem razão: "A INVISIBILIDADE MATA POR DENTRO", e eu diria que mata por fora também. Mata não apenas a homossexuais e outros discriminados/as do planeta, como também mata os/as que discriminam, agridem, desrespeitam, fazem de conta que seres humanos diferentes de si nao existem nem têm direito à existência. Porque por mais que nao saibam ou não enxerguem ou não queiram enxergar, ou se alienem, todos nós somos UM. O que atinge a uns e umas atinge aos outros/as também. 

É isso o que tento dizer, quando algumas/uns me acusam de me expor além do que devia. Não sou eu quem se expõe além do que devia, ao contrario, é a maioria dos/as homossexuais, principalmente das mulheres homossexuais que vivem como se não existissem, como se não fossem autorizadas a existir sendo o que são, que vivem escondidas, obrigadas a se invisibilizarem para não serem rejeitadas por amigos/as, familia, sociedade, para não correrem o risco de perderem o emprego, ou de serem desrespeitadas, humilhadas e marginalizadas. 

O duro disso é que todo ser humano deveria ter o direito de ser aceito e amado integralmente por sua familia e amigos/as e comunidade como são, em sua integridade. Como um pai, uma mãe, um irmão, uma irmã, um amigo, uma amiga, podem dizer que te amam, se nao te conhecem de fato, se nao aceitam parte importante da tua identidade e daquilo que voce é, obrigando-a/o a esconder tal essencia de sua personalidade e de voce mesma o tempo todo, sob pena de, caso contrário, te estigmatizarem e deixarem de te amar ? Naturalmente se é assim, o amor deles/as nao é integral, é muito limitado, é só até certo ponto, é por demais autoritário e asfixiante, é condicional a voce ser do jeito que querem, nos moldes que esperam e estabelecem, o que chega a ser muitas vezes um desamor que te mutila. Isso mesmo, um desamor. Por mais que amemos nossa mae, nosso pai, nossos irmaos, amigos/as, se só nos amam através de imagens parciais de nós, se não podemos ser nós mesmas/os para eles/as, então que amor é esse ? Amam a nós ou apenas a uma imagem falsa e cômoda que criam de nós ? E como isso pode nos fazer bem, se invisibiliza e mutila tanto de nós ? Se por vezes chega até a nos impedir de amar quem realmente amamos e de poder partilhar esse amor com a família e amigos/as ?

E quando resolvem fazer aquele jogo de, apesar de verem e saberem o que sua filha, ou seu filho são, o que sua irmã/ão é, o que sua amiga/o é, e como se sentem, apesar de saberem, fazerem de conta que nao sabem e nem querem saber ? Isso faz bem a alguém ? Não, nada bem. Isso nos envenena, isso faz sofrer uma filha/o, uma irmã/ão, uma amiga/o homossexual, isso ja levou até muitas/os ao suicídio. Ninguém deseja um amor pela metade, todo mundo precisa se sentir amada/o e respeitada/o de fato, tanto por sua família quanto por quem a/o rodeia. E é isso que desejo nao apenas para mim, mas para todas as pessoas e para minhas irmãs e irmãos homoafetivas/os também. Por isso não posso e nunca me calei nem sobre isso nem sobre qualquer questão que diga respeito à marginalização e invisibilidade de qualquer ser humano. No caso dos homossexuais, e especialmente das mulheres homossexuais, a crueldade disso tem sido muito grande há séculos demais. A sociedade nem imagina quem são e realmente quantas são as mulheres que amam outras mulheres em seu meio, porque as que têm coragem de se assumir não chegam a 10% do todo. Creiam-me, sei do que falo. E apesar de ser doloroso e bastante difícil, acho que esse peso só poderá sair de nossas costas quando vencermos os medos, quando conseguirmos dizer a verdade a todos/as, quando sairmos da invisibilidade e pararmos de viver como baratas obrigadas a se esconder, com medo de serem esmagadas. Porque enquanto formos invisíveis é como se não existíssemos e não tivéssemos o direito de existir.

O que tento mostrar é que se quisermos ver transformações de preconceitos nesse mundo, precisamos nós mesmas/os começarmos a ser a mudança. No caso da homoafetividade feminina, se a maioria das mulheres homossexuais continuar sempre se escondendo e for invisível para a sociedade e para sua família, por causa de seus medos, nada nunca mudará. É preciso que pelo menos algumas sejam pioneiras a começar o enfrentamento de tais medos e dessa situação tão opressora, mesmo que isso signifique ser por vezes estigmatizada ou coisa pior. Ninguém fará isso por elas. Precisam ser as próprias autoras de sua história e não deixar que suas vozes se calem, por mais mordaças que queiram colocar-lhes, não esquecendo também de que é muito necessária nessa empreitada a solidariedade de todos/as os/as amigos/as e parentes não homos - os quais, no entanto, não se disporão a isso se não ouvirem suas vozes. Isso porque, só as vozes das proprias mulheres homossexuais poderão ajudar a diminuir medos e a esclarecer visões quase sempre tão equivocadas e ignorantes a respeito delas. Dificilmente isso poderá acontecer se continuarem se omitindo, mergulhadas no silêncio e prisões angustiantes.

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