sábado, 28 de julho de 2012

Sérvia se torna polo para cirurgia de mudança de sexo


Vinte anos atrás, jornais sérvios disseram que a transexualidade de ser um ato contra Deus. Hoje, pessoas de todo o mundo vão para a Sérvia para passar por cirurgias de mudança de sexo, que agora são subsidiadas para os cidadãos pelo plano de saúde nacional.

"É surpreendente que um país conservador e patriarcal esteja se tornando um polo de operações de mudança de sexo, mas as atitudes sociais estão mudando lentamente", disse Cristian, um ativista transgênero de Belgrado que, apesar dos avanços na sociedade, optou por não informar seu sobrenome.

Cerca de cem estrangeiros e sérvios passaram por cirurgias de mudança de sexo no ano passado no país e os números estão crescendo, de acordo com o Centro de Belgrado para Cirurgia Reconstrutiva Genital. Os candidatos são de países como França, Rússia e Irã, e de lugares tão distantes como Estados Unidos, África do Sul, Cingapura e Austrália.

A Sérvia está se tornando um centro de cirurgia transexual, dizem os especialistas, em parte porque a cirurgia é cara, complicada e controversa e evitada em muitos outros países da região, incluindo Áustria, Hungria, Romênia, Bulgária e Grécia e outros países da ex-Iugoslávia, de acordo com doutor Miroslav Djordjevic, um professor de urologia que dirige o centro em Belgrado.

Mesmo em países medicinalmente avançados da Europa Ocidental, como a França, alguns cirurgiões se queixam de que não podem obter formação adequada ou que são repreendidos por seus colegas por considerarem a realização de cirurgias de mudança de sexo, o que leva muitas pessoas à Bélgica para realizar o tratamento. No Reino Unido, onde os custos do procedimento chegam a US$ 15 mil e são cobertos pelo Serviço Nacional de Saúde, 143 operações foram realizadas em 2009, segundo a imprensa local.

O doutor Marci Bowers (um ginecologista transexual de San Mateo, Califórnia, que realizou 1,1 mil operações de mudança de sexo nos últimos dez anos) observou que nos Estados Unidos apenas cerca de cinco cirurgiões realizam a operação regularmente. Ela disse que o conservadorismo social e a falta de habilidades cirúrgicas em muitos países, combinados com os temores dos cirurgiões de complicações potencialmente catastróficas, estão promovendo o crescimento do turismo medicinal para a mudança de sexo.

Pacientes estrangeiros dizem que são atraídos para a Sérvia pelo preço: cerca de US$ 10 mil - nos Estados Unidos a operação mais cara, de transformação do sexo masculino para o feminino, não sai por menos de US$ 50 mil.

Os sociólogos dizem que a atitude mais tolerante em relação aos transexuais na Sérvia assinala os primeiros sinais de mudança em um país onde as correntes conservadoras ainda são profundas.

"Somos filhos de dois pais: um é a Igreja Ortodoxa, o outro é o comunismo", disse o doutor Dusan Stanojevic, um pioneiro da cirurgia de mudança de sexo no país.

Ele disse que a transexualidade era tão tabu na antiga Iugoslávia que nem sequer era mencionada nos livros de medicina. Mas o cirurgião Sava Perovic começou a realizar as operações em 1989, após ser abordado por um homem que sofria de transtorno de identidade de gênero.

Na Sérvia, a cirurgia é realizada em um procedimento único de seis horas, poupando o paciente do trauma de várias operações. Complicações podem incluir o arrependimento pós-operatório, problemas de funcionalidade ou infecção.

Para se qualificar para a cirurgia o paciente precisa de duas cartas de recomendação de especialistas psiquiátricos que comprovem que ele ou ela está sofrendo de transtorno de identidade de gênero - quando um homem ou uma mulher se identifica melhor com o sexo oposto. Pelo menos um ano de aconselhamento e um ano de terapia hormonal são necessários antes da cirurgia.

Daniel, um advogado de 25 anos de São Peterburgo, na Rússia, chegou a Belgrado em maio para a cirurgia depois de não conseguir encontrar um médico adequado em seu país. A cirurgia e o tratamento foram tão bem sucedidos que Daniel, que levanta pesos com regularidade e gosta de ostentar barba por fazer, revela poucos sinais de que já foi do sexo feminino.

"Precisei sair do armário duas vezes, primeiro como lésbica, depois como transexual. Isso facilitou o processo", disse ele, um dia depois de passar pela cirurgia. "A Rússia é extremamente homofóbica e fazer isso na Sérvia foi mais fácil para mim."

Por Dan Bilefsky

Fonte: Último segundo


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