domingo, 13 de maio de 2012

Obama, Fidel e as mães: a terra gira


Por Roldão Arruda

Três notícias recentes sobre o mesmo tema: 1) o  presidente americano Barack Obama admite, em plena campanha eleitoral, que apoia o casamento entre pessoas do mesmo sexo; 2) a psicóloga Mariela Castro, filha do presidente cubano Raul Castro, anuncia os preparativos para Jornada contra a Homofobia em Havana; 3) mães de filhos homossexuais declaram em Brasília que vão abrir a Marcha Contra a Homofobia, dia 16.

De diferentes maneiras, as três confirmam Galileu Galilei: E pur se muove! Vejamos.

Obama é o primeiro presidente negro em um país no qual até a década de 1960 a população negra era segregada e no qual se afirmava, com a certeza dos iluminados, que os casamentos interraciais afrontavam a Bíblia. O quadro só mudou após a mobilização dessa população pela garantia de seus direitos civis. Sem mobilização Obama não estaria onde está. Não é por acaso, portanto, que seja ele o primeiro presidente americano a se manifestar a favor dos direitos civis da minoria homossexual.

Em Cuba, durante décadas o regime de Fidel Castro perseguiu vergonhosamente – e com o silêncio tácito de intelectuais de esquerda – os homossexuais. Seguia o padrão clássico dos regimes totalitários, tanto de esquerda quanto de direita. Os gays foram enviados para campos de concentração na Alemanha nazista, encarcerados no período stalinista da extinta União Soviética, apontados como excrescência do capitalismo na Albânia de Enver Hodja, perseguidos no serviço diplomático brasileiro nos anos da ditadura militar, e assim por diante.

Hoje são apedrejados no Irã, na Arábia Saudita, Sudão e alguns outros países que, seguramente, não frequentam a lista dos mais democráticos. É significativo mais uma vez, portanto, que a filha do presidente cubano esteja à frente da jornada em defesa da diversidade sexual, que neste ano homenageará Virgilio Piñera, escritor que Fidel perseguiu e impediu de divulgar seus escritos porque era homossexual.

Quanto às mães que vão marchar em defesa dos filhos, tenho uma observação bastante pessoal. Lembro que nos anos 90, quando coletava material para Dias de Ira, livro-reportagem sobre o assassinato de homossexuais no período do surgimento da Aids, uma das maiores dificuldades que enfrentei foi o silêncio das famílias. Os poucos pais e mães com os quais consegui conversar me receberam com frieza e negativas. Não queriam nem mesmo que a polícia desse andamento aos inquéritos policiais para encontrar os assassinos dos filhos, com medo de ficarem expostos aos comentários de vizinhos, colegas de trabalho, conhecidos.


Enfim, leitor, o mundo gira. Felizmente.

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