sábado, 11 de fevereiro de 2012

Quantificar o invisível: a homofobia, seus agentes e suas vítimas

O movimento LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) se ressente de estatísticas sobre sua população. Daí a importância de uma pesquisa de alcance nacional como Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil – Intolerância e Respeito às Diferenças Sexuais, realizada pela Fundação Perseu Abramo, em parceria com a Fundação Rosa Luxemburg. O estudo agora avança com a publicação de artigos, organizados por Gustavo Venturi e Vilma Bokany, que analisam os resultados.

Qualquer tentativa de recenseamento estará lidando com uma enorme subjetividade. O medo da exposição e da discriminação é um fator intrínseco a dificultar contagens dessa comunidade dispersa e pouco unificada por interesses comuns.

Os levantamentos mais abrangentes, como esse, são feitos por amostragem, ou seja, colhem uma parte representativa do todo para inferir percentuais da totalidade com margem de erro. Outra limitação é que só conseguem reunir entrevistados LGBT formando uma rede de indicações, em vez de obter uma amostra probabilística a partir da totalidade da população pesquisada.

Romper o silêncio

A diversidade de abordagem dos artigos, e dos intelectuais envolvidos na análise dos resultados dos 2.014 questionários preenchidos, revela a dimensão e riqueza de uma pesquisa que mais parece uma qualitativa de larga escala. Há resultados reveladores sobre a condição das lésbicas, as diferenças de tratamento social para transexuais e travestis, o duplo preconceito contra LGBT negros e negras, o papel fundamental da escola na reprodução da homofobia e a importância da Aids para a estigmatização de LGBT.

Dito isso, é essencial analisar o alcance de uma pesquisa que cria estratégias para extrair dos entrevistados aquilo que não querem dizer, sobre algo que conhecem muitas vezes pela via do preconceito. Os questionários tentam de forma indireta chegar ao indizível, aquilo que as pessoas evitam comentar ou só expressam de forma irrefletida e agressiva, para evitar falar abertamente do que as incomoda.

Mesmo diante de números coletados cuidadosamente, procurando garantir que as pessoas não falseiem sua opinião para parecer politicamente corretas, ficam inúmeras dúvidas no ar. Não necessariamente devido a alguma falha da pesquisa, mas porque estamos abordando um assunto cercado de silêncio e vergonha. Mais um motivo para comemorar o valor do acervo de dados obtidos pela pesquisa e a bibliografia que se enriquece com a nova publicação. Não há como interditar a contundência desses números e o retrato impressionista dos preconceitos brasileiros ao final da primeira década do século 21, mais precisamente, junho de 2008.

O elemento da invisibilidade forçada da população LGBT, somado ao modo indireto como a pesquisa em questão tenta chegar ao preconceito do entrevistado, torna a leitura de resultados bem mais delicada, como assume o próprio Venturi. Interpretações de que a quase totalidade da população brasileira teria algum nível de concordância com chavões homofóbicos foram usadas por setores reacionários para justificar a negação de políticas públicas para LGBT. Outros, ainda, disseram que a pesquisa apenas reafirmava o preconceito, quando, na verdade, assusta ao expressar a força da cultura homofóbica.

Houve quem achasse covardia abordar um cidadão com “verdades” mitológicas consagradas pela repetição, como “Deus fez o homem e a mulher com sexos diferentes para que cumpram seu papel e tenham filhos”. Mesmo concordando plenamente com a assertiva, os pesquisadores ponderaram que isso não significaria legitimar o tratamento discriminatório contra LGBT. A pesquisa estabelece índices crescentes de preconceito, em que, mesmo concordando com certas asserções homofóbicas, uma pessoa pode ter baixa pontuação de preconceito e, portanto, menor possibilidade de discriminar. Esse índice procurou inclusive evitar itens do questionário que se mostrassem ambíguos, considerando apenas manifestações mais evidentes de homofobia, como a pessoa que diz não aceitar de modo algum um homossexual em situações reais de sua vida.

Alguns textos avançam na análise dos dados ao usar o que estes têm de mais enfático, enquanto outros abrem hipóteses interessantes que os dados não são capazes de responder de forma cabal. Venturi destaca, por exemplo, que, apesar da relatividade da “régua” utilizada, é nítido o fato de que as pessoas admitem com mais tranquilidade seu preconceito homofóbico que o racial ou geracional. Embora os números sejam desanimadores, é preciso identificar avanços e insistir na dialética ao fazer o cruzamento dos dados.

O catolicismo hegemônico, porém não praticante, do brasileiro é cada vez mais pródigo em paradoxos do tipo “ame os homossexuais, mas não a homossexualidade”. Desse modo, os cruzamentos de respostas do levantamento devem ser cuidadosamente analisados para não incorrer em interpretações simplistas e, assim, poder revelar um Brasil mais complexo e interessante.

Sistema de opressão institucionalizada

As afirmações enfáticas a partir dos números são o que menos me intrigou na leitura dos gráficos. Tem algo na própria concepção da pesquisa que é mais revelador e precioso, algo que vários textos foram capazes de ressaltar. A abordagem revela um sistema abrangente e profundo de como o preconceito e a discriminação se capilarizam em todas as instituições, não como um parasita intruso, mas como um mecanismo inerente e cultivado para seu funcionamento.

A novidade da pesquisa é que ela parte da noção de heteronormatividade para mostrar a mecânica da opressão sobre toda espécie de sexualidade divergente. Poderia optar pelo óbvio e investigar o tamanho da violência física que atinge LGBT. No entanto, investiga a violência simbólica e escancara a opressão contra milhões de brasileiros. A homofobia seria, então, o instrumento mais expressivo de afirmação e valorização heterossexual. A ousadia da pesquisa estaria em desconstruir raciocínios homofóbicos, em vez de apenas acusar enumerando os homofóbicos.

Paradoxos, dialética e razão mística

Alguns textos expõem as dificuldades de avaliação de resultados de uma pesquisa que ilumina a penumbra do pensamento homofóbico atrás de elementos que, pela dificuldade de abrir o debate público, justificam os mais diversos paradoxos. São questionamentos sobre quem estaria mais vulnerável à homofobia e por quais motivos.

O silogismo das hipóteses é frequentemente contraditório, mas continua fazendo sentido; afinal estamos falando de vivências reprimidas e pensamentos místicos publicizados à exaustão. Embora haja tantas possibilidades de explicação para os resultados, os números dizem muito e reduzem as hipóteses por eliminação.

Se nos apegarmos às frases do senso comum homofóbico para tentar entender os motivos, poderemos nos confundir ao perceber que, muitas vezes, elas se contradizem. Mas podemos, ainda, deixar todo esse racionalismo de lado e entender toda essa exclusão simplesmente “porque Deus abomina”. A representação da homossexualidade como doença e safadeza, convivendo juntas, mostra que não há lógica possível no preconceito. Raciocínios que não se excluem, mas se complementam mutuamente.

A partir desses 99% que concordam em algum grau com todas as afirmações preconceituosas, deparamos com mais paradoxos que se criam contra as estratégias coletivas de enfrentamento à homofobia. Esta é maior contra os visíveis ou contra os que estão “no armário”? Um falso dilema, provavelmente, se considerarmos que ambos sofrem de diferentes formas com a exposição/ocultamento de sua sexualidade e ambos se tornam altamente vulneráveis a processos de violência física e psicológica. Todos, assumindo identidades políticas ou não, sofrem processos de exclusão, seja pela fácil localização dos assumidos, seja por estarem escondidos, mentindo sobre sua vida ou deixando de viver seu cotidiano afetivo-sexual plenamente.

Avanços e recuos

A mentalidade avança e recua a partir da conjuntura. Após os anos 1980, o debate progrediu a ponto do surgimento das Paradas do Orgulho. Atualmente, o retrocesso tem sido forte, com o crescimento dos discursos religiosos na mídia. É dessa dialética que temos de entender os números da pesquisa. Embora as pessoas ainda sejam muito preconceituosas, partem de uma base de informação sobre LGBT bem superior àquela de trinta anos atrás.

O próprio avanço na organização dessa população discriminada tem sido motivo para uma reação mais ampla dos setores conservadores, do mesmo modo que constrange reações homofóbicas e mobiliza reações opostas nos Poderes Judiciário e Legislativo.

O modo como preceitos bíblicos comparecem na opinião de uma maioria quase unânime, mesmo entre LGBT, merece uma abordagem aprofundada. Buscar entre teólogos de igrejas inclusivas uma análise “interna” para o fenômeno da homofobia nas igrejas poderia iluminar alguns dados da pesquisa.

Deve haver poucas contradições tão simbólicas da condição homossexual no Brasil como a representação humorística caricata de personagens LGBT, que popularizam atores pela graça peculiar de sua androginia. São os mesmos que perpetuam a imagem leviana e ridícula que os homofóbicos atacam. Uma polaridade que marca a vivência dessa população no Brasil, tanto pela relativa tolerância de que usufrui quanto pela violência física e simbólica que persiste em seu cotidiano. São esses procedimentos que podemos captar nos dados de uma pesquisa tão ousada ao quantificar subjetividades e tão abrangente ao alcançar brasileiros de todo o território nacional.

Claudio Cezar Xavier é jornalista e mestrando em Semiótica, foi coordenador de Comunicação da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, de 2006 a 2010.

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