quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Primeiro transexual do Brasil lança autobiografia no Recife

aece75f9aaffe4919ab999de5e999cff.jpg

O carioca João Nery, conhecido por ser o primeiro transexual do Brasil, está no Recife para lançar, nesta quinta-feira (1º), o seu mais recente livro autobiográfico "Viagem Solitária - Memórias de um transexual 30 anos depois". A publicação, lançada no último mês de outubro, é uma releitura do seu primeiro livro “Erro de Pessoa: João ou Joana?” e a sua continuação.

No primeiro livro, que está esgotado, João contava como se tornou a primeira mulher a virar homem no País. Ele, que nasceu mulher em 1950, sabia desde pequeno que era um menino. Quando o chamavam de "ela", consertava mentalmente para "ele". O pior do que a discriminação, era não entender por que tinha nascido "no corpo errado". Só descobriu o que era transexualidade em 1975, aos 25 anos de idade, quando viajou para a Europa. No Brasil, que vivia o período da Didatura Militar, ninguém falava sobre a assunto e o preconceito, que existe até hoje, era muito maior. Dois anos depois, em 1977, decidiu fazer a cirurgia, considerada ilegal na época. 

"Sabia que precisava encarar a cirurgia, mesmo sendo clandestina no Brasil. O cirurgião plástico que me operou no Rio de Janeiro dizia que não podia ficar insensível a um problema tão sério", conta João. Após duas cirurgias, ele começou a utilizar testosterona, e assim adquiriu pêlos, a voz grossa, a musculatura e a careca. "Por ser o primeiro, me considero uma cobaia. Tenho problemas de saúde (como artrose) que não posso afirmar se estão ligados à minha transformação. Mas tenho orgulho de ter dado o primeiro passo". As cirurgias de mudança de sexo passaram a ser legais no Brasil só em 1997. Desde 2008, o procedimento pode ser realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). "Não podemos negar que essa foi uma grande conquista, mas ainda temos um grande caminho pela frente. Apenas cinco hospitais no Brasil realizam o procedimento pelo SUS. A fila de espera é enorme e a burocracia também é grande. São dois anos para avaliar se você é transexual. E em relação à documentação ficamos à mercê da interpretação do juiz", explica. 

Um ano após ser operado, como não poderia modificar a sua antiga documentação, João decidiu tirar uma nova identidade em 1978. Como passou a ter um documento irregular, teve que deixar de lado toda a carreira profissional que tinha construído até os 30 anos de idade. Ao perder o diploma de psicólogo, trabalhou numa usina de concreto, foi artesão, terapeuta corporal, técnico em computador, professor universitário. Hoje, aos 62 anos de idade, João continua a lutar pelo fim do preconceito. "Acho que o trabalho de esclarecimento deve atingir toda a população, principalmente os profissionais do Direito e da Saúde. Os transexuais não recebem um tratamento adequado nos hospitais, também não existem políticas públicas voltadas para este público", conta.

A ideia de reescrever a sua autobiografia surgiu com a maturidade. "Após completar 60 anos senti a necessidade de reescrever a minha história sob um novo olhar. Além de contar o que aconteceu comigo desde a infância, este novo livro traz a minha vivência da parternidade", explica. João é casado e tem um filho adotivo, hoje com 25 anos de idade e formado em engenharia.

O lançamento do livro "Viagem Solitária - Memórias de um transexual 30 anos depois" acontece nesta quinta-feira (1º), às 18h, na Livraria Cultura, no Centro do Recife. No evento, também será promovido um debate sobre o tema transexualidade. O evento, aberto ao público, é realizado pela Associação Brasileira de Homens Trans (ABHT) e conta com apoio da Prefeitura do Recife.

Publicado pela editora Leya Brasil, o livro está à venda por R$ 44,90.

SERVIÇO
Lançamento do livro "Viagem Solitária - Memórias de um transexual 30 anos depois"
Com a presença do autor João W. Nery
Quinta-feira (1º), às 18h
Livraria Cultura - Bairro do Recife

Nenhum comentário:

Postar um comentário