sábado, 17 de dezembro de 2011

A luta pelo emprego das travestis no ABCD

DERLA CARDOSO
derla.cardoso@abcdbomdia.com.br
Pelo menos 350 travestis ganham a vida trabalhando na Avenida Industrial, em Santo André. A renda mensal de algumas chega a até R$ 10 mil por mês e boa parte deixa o local após seis meses para se prostituir na Itália. A cada dia, no entanto, novas pessoas chegam à avenida para tentar sobreviver e ficam no lugar de quem já se foi. A Industrial é referência nacional de prostituição e essa atividade específica começou no local há cerca de 50 anos.

Além de serem vítimas de preconceito todos os dias, as travestis estão sujeitas à ficarem doentes ou serem assassinadas. Há também quem entra para o mundo das drogas e do crime. Nem sempre se prostituir é vontade ou primeira opção de todas. A história se repete com a maioria: tentou arrumar trabalho após ter se tornado travesti não conseguiu emprego, junto a isso não teve apoio da família e precisou sair de casa. Vender o corpo, então, foi o que restou para não morrer de fome.


Na tentativa de mudar um pouco dessa realidade a ONG ABCD'S (Ação Brotar pela Cidadania e Diversidade Sexual) começou a realizar encaminhamento de travestis interessadas para empresas. A organização conta com parceria com companhias multinacionais e de grande porte que empregam quem possui ensino médio completo, boa comunicação – no caso de quem tem segundo idioma a remuneração é maior. Os salários são acima de mil reais e há benefícios como vale transporte e alimentação.


“Muitas vezes a sociedade acaba empurrando essas pessoas para a rua e não queremos isso. Nosso trabalho ainda é pequenininho, mas vamos crescer. Já empregamos 18 travestis e transexuais. Nosso maior desafio é aumentar a escolaridade das interessadas. Tem muita gente que não consegue vagas por isso”, explicou o presidente de honra da ONG, Marcelo Gil.


Na cidade, além da ABCD'S, quem realiza trabalho para empregar esse público é a prefeitura de Santo André. A administração andreense, atualmente, possui cinco servidoras que são travestis. A contratação foi feita durante a divulgação de 1500 vagas para uma frente de trabalho. Durante a inscrição foram perguntados a orientação sexual de quem estava interessada e nome social, aquele que adotou após se tornar travesti. Para realizar esse trabalho com o público houve capacitação dos funcionários públicos.


A travesti Mel Muniz, de 28 anos, foi uma das contratadas para trabalhar. Hoje, atua como agente de utilidade pública. “Me identifiquei muito bem com o trabalho e com as pessoas. Todo mundo me chama de Mel. As pessoas precisam saber que opção sexual não define caráter nem profissionalismo de ninguém.”


Dificuldade
As iniciativas andreenses são apenas um início de mudança. Quem consegue ganhar a vida sem a prostituição ainda é minoria. “Nunca vi uma grande empresa contratar  travesti. Nenhuma das minhas amigas também não. As portas são fechadas e o preconceito fala mais alto nesse momento”, afirmou a cabeleireira  Aline Lima, de 32 anos. A profissional é transexual e para ela, as oportunidades no mercado são escassas. Ainda segundo Aline, parte do problema também está nas travestis e transexuais. “A maioria é preguiçosa. Ninguém quer acordar cedo para trabalhar. A pessoa também precisa se esforçar para achar as alternativas”, defendeu.

 
‘Largaria tudo isso por um emprego de mil reais por mês’ 
Paloma, de 22 anos, veio de Teresina, no Piauí, há oito meses. Lá na terra Natal morou com a avó e trabalhou vendendo caixões e planos funerários de porta em porta. Antes disso tinha apenas realizado alguns trabalhos de ajudante na antiga escola que estudou. 
No estado de origem, segundo ela, a situação está difícil até para quem não é travesti.


“Meu sonho era fazer medicina, mas não teve jeito. Vim embora para São Paulo tentar uma vida melhor. Chegando aqui já fui orientada a procurar uma cafetina porque ninguém dava emprego e vim para cá”, lembrou Paloma que trabalha sete dias da semana e ganha R$ 400 por dia.


Para trabalhar na Industrial, segundo ela, foi preciso investir no corpo. Para colocar o silicone insdustrial nas pernas e peitos foram R$ 4 mil e para colocar aplique para alongar o cabelo mais R$ 3 mil. “Ter medo de estar aqui eu tenho, mas fazer o quê? Quero ficar dois anos só trabalhando na rua. Largaria tudo se arranjasse um emprego numa loja que pagasse mil reais por mês. Ninguém dá oportunidade para a gente e temos que vir aqui”, contou a travesti que começa a atuar às 13h  e vai para casa às 4h.


“A maioria dos clientes vem de dia, então tenho que entrar cedo. Não gosto do que tenho que fazer. Só estou aqui pelo dinheiro.”
 
Área da beleza é a que mais contrata travestis 
“Você já viu algum travesti trabalhando em banco ou como operador de caixa em supermercado? Além da área da beleza e da prostituição, nunca vi”, questionou o presidente do Grupo Liberdade LGBT SBC Vanderlei Palácio Teixeira. Para ele, falta políticas públicas e mobilização das empresas para empregar pessoas deste gênero.


Neste contexto, a área da beleza acaba sendo a única que absorve profissionais travestis e transexuais. Carla Rangel, de 28 anos, é um dos exemplos de pessoas que tiveram oportunidade em salão de beleza. A cabeleireira, maquiadora e apresentadora de shows se tornou travesti há apenas um ano e antes disso já havia trabalhado como locutor de bingo, vendedor e operador de telemarketing.


“A minha última empresa foi a Atento [companhia de call center]. Já estava lá há três anos e quando voltei das minhas últimas férias tinha me tornado travesti. Achei que iam me discriminar e que teria problemas, mas nada aconteceu. Sai de lá depois de mais de um ano e quase me tornei supervisora”, lembrou a profissional que acrescentou: “Já fazia alguns trabalhos aqui para o salão, mas também achava que não iam me querer mais. Minha chefe me apoiou e disse que podia ficar. Trabalho com homens e mulheres aqui e nunca tive nenhum problema”, explicou Carla que atua no Charme Black, em São Bernardo.


A cabelereira Aline Lima, de 32 anos, também teve uma trajetória de sucesso no mundo da beleza. A vontade de trabalhar veio desde pequena e com apenas 16 anos já era formada na profissão. O primeiro emprego veio no mesmo dia em que pegou o diploma. “Estavam procurando ajudante num salão conceituado de Santo André e entrei para me apresentar. Deu um pouco de medo, mas o máximo que podiam me dizer era não. Disseram sim e trabalhei por um bom tempo lá. Depois disso atuei em outro salão e logo em seguida montei o meu. Vagas tem, mas é preciso correr atrás e se qualificar”, explicou a transexual.


Além de correr atrás das oportunidades na área é preciso ter postura profissional, segundo a travesti Jackeline Aveiro, de 24 anos. que também é cabeleireira. “Já entreguei currículo e sempre estive adequadamente vestida. Você não está ali para mostrar seu corpo e sim seu trabalho. É preciso ter senso de lugar. Mesmo assim ainda tem gente que olha feio.” 

Nenhum comentário:

Postar um comentário